quinta-feira, 15 de maio de 2025

As Metonímias

Falei com a pena o que calou o peito,

E o pranto virou tinta no papel.

Beijei os lábios do silêncio alheio,

Tomando o nome pelo gosto do mel.


Vivi das mãos que me negaram rosto,

E abracei retratos por calor de gente.

Sorvi o copo quando quis o gozo,

E dancei sapatos como se alma houvesse.


Amei um terno como quem se casa,

Chorei medalhas no lugar de pais.

Segurei a enxada e toquei o campo,

Senti a bandeira — jurei o cartaz.


Ouvi o sino e rezei o templo,

Comi o prato e saciei lembranças.

Fiz da moldura o retrato eterno,

E da coroa, o sangue das heranças.


Mas nunca disse o nome exato das coisas,

Prefiro o eco ao grito, o vilão ao herói.

Pois sei que o mundo é feito de atalhos:

O dedo aponta… e o olhar constrói.


E nunca direi o nome exato das coisas,

Prefiro dúvida real a verdades vistosas.

Pois sei que o mundo habita o que se esconde:

O dedo aponta… e o olhar é quem responde.

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