Falei com a pena o que calou o peito,
E o pranto virou tinta no papel.
Beijei os lábios do silêncio alheio,
Tomando o nome pelo gosto do mel.
Vivi das mãos que me negaram rosto,
E abracei retratos por calor de gente.
Sorvi o copo quando quis o gozo,
E dancei sapatos como se alma houvesse.
Amei um terno como quem se casa,
Chorei medalhas no lugar de pais.
Segurei a enxada e toquei o campo,
Senti a bandeira — jurei o cartaz.
Ouvi o sino e rezei o templo,
Comi o prato e saciei lembranças.
Fiz da moldura o retrato eterno,
E da coroa, o sangue das heranças.
Mas nunca disse o nome exato das coisas,
Prefiro o eco ao grito, o vilão ao herói.
Pois sei que o mundo é feito de atalhos:
O dedo aponta… e o olhar constrói.
E nunca direi o nome exato das coisas,
Prefiro dúvida real a verdades vistosas.
Pois sei que o mundo habita o que se esconde:
O dedo aponta… e o olhar é quem responde.
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