Deuses: tragam-me veneno, e não consolo,
que o bálsamo prolonga esta agonia.
Prefiro a dor aguda, e o tom do solo
que finda em mim a etérea melodia.
Não peço luz, nem paz, nem claro dia,
mas sombra funda, austera, sem consolo,
um leito nu, sem flor nem fantasia,
onde eu me apague inteiro sem orgulho.
Se amar é rito vão de sofrimento,
que cesse em mim tal fé desfigurada:
prefiro o fim ao vão renascimento.
Não suporto esta sede duradoura
que nunca mata e nunca me descansa,
amor que vive e, vivo, me devora.
Deuses: não me tragais veneno algum —
que é doce o fel do amor quando persiste.
A dor que nele arde é mais que um lume:
é prova de que o mundo ainda existe.
Se a vida fere, ao menos não é muda;
e mesmo o pranto tem seu timbre exato.
Prefiro o gozo breve à paz obtusa,
prefiro o caos do fogo ao frio abstrato.
Amar, embora em sombra, é ser inteiro;
é resistir no abismo mais profundo.
Se perco, ao menos sou o que primeiro
ousou lançar-se à chama deste mundo.
Que venha a dor — mas plena, com sentido:
é vivo o peito onde arde o não vencido.
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