domingo, 27 de outubro de 2024

Vesúvios

A chama ardendo em fogo, caracteres em cinzas,

Retornam das sombras, num novo Gilgamesh.

São letras reerguidas de longas ruínas,

Horizontes tenros onde o velho é refém.


O Tempo, o editor mais antigo do mundo,

Revira as tábuas guardadas sob a poeira.

Da floresta esquecida, um eco profundo:

Macacos, corte, canção — uma cena inteira.


Era ogro ou rei? Quem já sabia, errou.

Humbaba ganha agora outra face e traje,

E, aos ventos da História, seu rosto mudou,

Nos tabuleiros velados em viagem.


Um dilúvio, narrado em tábuas, sobrevive,

Onda ancestral que os homens, depois, reescreveram;

Tantas vezes recai a lenda em nova rive,

E a arca ressurge dos mitos que a teceram.


São vesúvios, os achados do que se oculta,

Onde o mito dorme, lento, quase extinto.

Pois cada novo fragmento em lume exulta,

E à origem primeira retorna o instinto.


Assim a poeira recai, feito cinza a soprar,

Onde o épico finda, começa o resgate.

O antigo se ergue, num tempo a se desdobrar,

E o verso perdido, de novo, nos arrebate.


https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2024/08/inteligencia-artificial-acelera-reconstrucao-da-epopeia-de-gilgamesh.shtml

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