Nota simbólica de 100 BRICS apresentada ao Embaixador dos Emirados Árabes Unidos, Mahsh Saeed al-Hameli pelo Embaixador Russo na África do Sul, Ilya Rogachev.
INTRODUÇÃO
A última cúpula do BRICS na África do Sul marcou um momento histórico nas relações internacionais, com a aprovação da entrada de seis novos membros ao grupo. Esse evento não apenas consolidou o papel do BRICS como um ator importante no cenário global, mas também simbolizou uma revolta do assim chamado Terceiro Mundo contra as potências centrais do sistema.
Neste estudo, analisaremos a revolução do BRICS e seu impacto no equilíbrio de poder global. Para compreender sua importância, é crucial revisitar o conceito de Terceiro Mundo, amplamente utilizado durante a Guerra Fria para descrever os países menos desenvolvidos da Ásia, África e América Latina. Estes países, historicamente subjugados pelas potências ocidentais, foram economicamente explorados e mantidos dependentes de interesses externos. O BRICS surge como uma resposta a essa dinâmica, buscando criar um espaço onde os países do Terceiro Mundo possam defender seus interesses coletivamente. Inicialmente composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o grupo rapidamente se estabeleceu como uma voz influente no cenário global, advogando por políticas que promovem o desenvolvimento sustentável e a equidade econômica. A recente expansão do BRICS, com a adesão de seis novos membros durante a última cúpula na África do Sul, marca um momento significativo nessa trajetória. Ao permitir a inclusão de mais países, o grupo reforça seu compromisso com a diversidade e amplia sua influência e representatividade global. Essa expansão não apenas simboliza, mas também facilita uma participação mais ativa de países do Terceiro Mundo nas decisões que moldam seu futuro.
No contexto atual das relações internacionais, o papel do BRICS como um bloco de países emergentes têm despertado crescente interesse e debate. A última cúpula do BRICS na África do Sul, que marcou a entrada de seis novos membros ao grupo, foi um evento emblemático que consolidou ainda mais sua influência no cenário global. Por essa razão, neste trabalho, por meio da lente do materialismo histórico-dialético e utilizando o método bibliográfico, propõe-se uma análise desse fenômeno e seus desdobramentos na dinâmica de poder global.
À vista disso, o problema de pesquisa proposto é: como a ascensão do BRICS e sua expansão recente impactam as relações de poder no sistema internacional? A hipótese sugere que a ascensão do BRICS desafia a hegemonia das potências ocidentais e que sua expansão reforça sua capacidade de influenciar a agenda global, ampliando a voz dos países emergentes nas decisões internacionais. Assim, o estudo justifica-se, em primeiro lugar, em contribuir para uma compreensão mais profunda das dinâmicas de poder no sistema internacional, especialmente no que diz respeito ao papel dos países emergentes. Além disso, ao analisar o BRICS sob a perspectiva do materialismo histórico-dialético, este trabalho oferece uma abordagem crítica sobre as relações coloniais e econômicas de classe e poder subjacentes nas relações internacionais contemporâneas. O objetivo deste trabalho, portanto, é analisar a ascensão e expansão do BRICS como um fenômeno que desafia a ordem global estabelecida, investigando seus impactos nas relações de poder internacionais.
Diante disso, a estrutura do artigo está organizada em quatro seções distintas, cada uma abordando um aspecto específico relacionado ao tema em questão. Na primeira seção: 1) Colonização e o status-quo pós guerra fria, será realizada uma análise da conjuntura global das principais potências econômicas mundiais durante o período de colonização de países emergentes. Serão listadas as potências envolvidas nesse processo, seguido pela discussão do status global após o término da Guerra Fria, destacando as principais potências nesse novo contexto. Nessa toada, a segunda seção do artigo: 2) A desdolarização como processo decolonial e os principais impactos da nova ordem mundial, abordará como a desdolarização pode ser compreendida como um processo decolonial na prática. Nesta seção, será discutido como uma nova moeda desafia a hegemonia econômica e financeira das potências ocidentais, em seguida, serão observados os efeitos dessa nova dinâmica global, reconhecendo que se tratam de efeitos em cadeia, muitas vezes intangíveis, que influenciam diversos aspectos da sociedade e das relações internacionais. Por fim, no último capítulo: 4) Por essa nova globalização, o trabalho defenderá os benefícios e potenciais vantagens dessa nova fase de globalização, destacando seu caráter de horizontalidade e enfatizando sua capacidade de promover a diversidade e inclusão de atores globais.
COLONIZAÇÃO, DEPENDÊNCIA E STATUS-QUO PÓS GUERRA FRIA
“A história do subdesenvolvimento latino-americano é a história do desenvolvimento do sistema capitalista mundial. Seu estudo é indispensável para quem deseje compreender a situação que este sistema enfrenta atualmente e as perspectivas que a ele se abrem”. (Marini, 2017 p.47) Com essas palavras, o cientista social brasileiro, conhecido internacionalmente como um dos elaboradores da Teoria da Dependência, Ruy Mauro Marini, inicia sua obra intitulada: Subdesenvolvimento e Revolução. A observação realça a necessidade de reconhecer que essa história não se desenvolve separada, indiferente a lógica que a circunda, mas ao contrário, intrinsecamente ligada à história do próprio sistema capitalista mundial.
Desde os primeiros contatos com as potências coloniais europeias até os dias de hoje, a América Latina tem sido um terreno fértil para experimentos econômicos, políticos e sociais que refletem as dinâmicas do capitalismo em escala global. No entanto, essa reflexão não se restringe apenas à América Latina, mas se estende a todo o Sul Global, onde as nações enfrentaram e ainda enfrentam desafios semelhantes de subjugação econômica e exploração, resultando em sistemas de desenvolvimento desiguais e dependentes. O recorte a seguir, de Eduardo Galeano, desenha a questão:
A Bolívia, hoje um dos países mais pobres do mundo, poderia vangloriar-se - se isto não fosse pateticamente inútil - de ter nutrido a riqueza dos mais ricos países. Em nossos dias, Potosi é uma pobre cidade da pobre Bolívia: “ A cidade que mais deu ao mundo é a que menos tem” como me disse uma velha senhora potosina, envolta em quilométrico xale de lã de alpaca, quando conversamos à frente do pátio andaluz de sua casa de dois séculos. (Galeano, 2020, p. 55)
Desde o período colonial, as principais potências econômicas mundiais exerceram um domínio significativo sobre os países emergentes, explorando seus recursos naturais e mão de obra para beneficiar suas próprias economias. Potências como Reino Unido, França, Espanha e Portugal estiveram entre as mais proeminentes nesse processo de colonização, estabelecendo impérios vastos que abarcavam regiões na África, Ásia e América Latina. Essas potências impuseram sistemas políticos, econômicos e sociais que favoreciam seus interesses, muitas vezes às custas da população local, resultando em desigualdades profundas e duradouras. O modelo econômico colonial baseava-se na extração de recursos naturais, na agricultura de exportação e na imposição de tarifas comerciais desfavoráveis aos países colonizados.
No decorrer dos três primeiros quartos do século XVI, concomitante à afirmação definitiva do capitalismo industrial na Europa, afirma Ruy Mauro Marini, que a região latino americana é chamada ao mercado mundial, como produtora de matérias-primas e consumidora da produção leve europeia. Nesse contexto, a ruptura com o monopólio colonial ibérico se torna uma necessidade, desencadeia-se um processo de independência política que terminaria ao final do primeiro século XIX, resultando nas fronteiras nacionais em geral ainda vigentes. (Marini, 2017).
A partir disso, se dá a integração dinâmica dos novos países ao mercado mundial, assumindo duas modalidades que correspondem às condições de cada país para realizar tal integração, além das transformações que sofre em função do avanço da industrialização nos países centrais.
Dessa forma, os países que respondem mais prontamente às exigências da demanda internacional são aqueles que apresentam certa infraestrutura econômica, desenvolvida na fase colonial, tornando-se capazes de desenvolver condições políticas relativamente estáveis. No entanto, a partir de 1875 certas mudanças se fazem sentir. Novas potências, especialmente Alemanha e Estados Unidos, começam a se expandir internacionalmente. Nos Estados Unidos, essa expansão inclui uma política voltada para a América Latina, muitas vezes em conflito com os interesses britânicos na região. Diante disso, no campo do comércio, a influência dos Estados Unidos foi determinante, levando alguns países, como o Brasil, a direcionar suas exportações para essa nova potência. Em contrapartida, nos países centrais, como a Alemanha e os Estados Unidos, há um aumento no desenvolvimento da indústria pesada e tecnologicamente avançada, levando a uma maior concentração de unidades produtivas e ao surgimento de monopólios. Ou seja, essas características são resultado da acumulação capitalista nas etapas anteriores, acelerando o processo e forçando o capital a buscar oportunidades de investimento além das fronteiras nacionais. Isso ocorre por meio de empréstimos públicos e privados, financiamentos, compra de ações e, em menor medida, investimentos diretos. Ao contrário dos créditos externos utilizados anteriormente, que estavam ligados a operações comerciais, o capital estrangeiro agora tem a função de extrair uma parte da mais-valia gerada dentro de cada economia nacional. Isso aumenta a concentração do capital nas economias centrais e alimenta o processo de expansão imperialista. Diante desse processo de industrialização central, que demanda por matérias-primas e alimentos, esses países subdesenvolvidos conhecem um auge sem precedentes, no entanto, consequentemente marcado por um aprofundamento de sua dependência, desenvolvendo uma maneira particular de integração. (Marini, 2017).
Finalmente, no decorrer do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, a economia latino-americana se caracteriza principalmente por ser exportadora e especializada na produção de alguns poucos bens primários. Uma parte do lucro gerado é enviada para as economias centrais devido à estrutura de preços no mercado mundial, práticas financeiras impostas por essas economias ou investimentos estrangeiros diretos.
Para compensar essa perda, as elites locais aumentam a exploração dos trabalhadores agrícolas ou mineiros, levando a condições de superexploração do trabalho. Esse fenômeno é fundamental na economia subdesenvolvida, resultando em baixos salários, falta de oportunidades de emprego, analfabetismo, subnutrição e repressão policial. Em suma, caracterizada por exportação de commodities, monocultura, exploração dos trabalhadores e consequente subdesenvolvimento socioeconômico. Cuba, por exemplo, um século após, quando os guerrilheiros da Sierra Maestra assumiram o poder, tinha seu destino atrelado à cotação do açúcar. José Martí, heroi nacional, previra que "o povo que confia sua subsistência a um só produto, suicida-se". Em 1920, com o açúcar a 22 centavos a libra, Cuba alcançou um recorde mundial de exportação por habitante, superando até mesmo a Inglaterra, e desfrutou da maior renda per capita da América Latina. Porém, em dezembro do mesmo ano, o preço do açúcar caiu quatro centavos, desencadeando uma crise: muitas centrais açucareiras quebraram e foram adquiridas por interesses norte-americanos, e todos os bancos cubanos e espanhois, incluindo o Banco Nacional, foram à falência. Com uma economia tão dependente e vulnerável, Cuba inevitavelmente sofreu o impacto devastador da crise de 1929 nos Estados Unidos: o preço do açúcar despencou para menos de um centavo em 1932, e em três anos as exportações, em valor, diminuíram para um quarto. O índice de desemprego em Cuba durante esses anos dificilmente foi igualado em qualquer outro país. (Galeano, 2020).
Da mesma forma: “Com capitais obtidos no tráfico de escravos, os irmãos Brown, de Providence, instalaram um forno de fundição que abasteceu de canhões o general George Washington na Guerra da Independencia”. (Mannix e Cowley apud Galeano, 2020, p. 116). No entanto, esse processo de consolidação histórica do imperialismo no capitalismo global não se realiza tranquilamente. Trata-se de um período extremamente difícil, que se abre com a guerra da partilha colonial de 1914 (Primeira Guerra Mundial em 1914), passando pela crise de 1929 e culminando na guerra pela hegemonia mundial de 1939 (Segunda Guerra Mundial em 1939), esse período foi marcado por desafios significativos. No entanto, a economia que emergiu deste processo mostrou uma tendência maior para a integração imperialista, consolidando a integração no mercado e promovendo a integração dos sistemas de produção. Isso levou a tendências contraditórias, com os Estados Unidos emergindo como um centro hegemônico que impulsionava e coordenava a integração, enquanto simultaneamente surgia o campo socialista como uma força oposta. Nesse sentido, observa-se uma expansão acelerada do setor de bens de capital, nas indústrias, especialmente no que se refere à indústria de guerra. Paralelamente, houve um aumento significativo do papel do Estado como agente central na produção e consumo da economia, especialmente na indústria bélica. (Marini, 2017)
Após o término da Segunda Guerra Mundial e o advento da Guerra Fria, o panorama global passou por transformações substanciais. As principais potências envolvidas no conflito, como os Estados Unidos e a União Soviética, exerceram influência direta em várias regiões do mundo, muitas vezes respaldando regimes alinhados aos seus próprios interesses geopolíticos. Com o desfecho da Guerra Fria, novas dinâmicas globais emergiram, marcadas pelo surgimento de novas potências econômicas, como China e Índia, desafiando o status quo estabelecido pelas potências ocidentais. Essas mudanças reconfiguraram o equilíbrio de poder global, dando origem a uma nova ordem mundial caracterizada por uma maior diversidade de atores e interesses. No contexto pós-Guerra Fria, as principais potências mantiveram sua importância central, porém enfrentavam novos desafios e competições provenientes de outras potências emergentes.
No período pós-Guerra Fria, os Estados Unidos emergiram como a principal superpotência global, exercendo influência sobre a economia mundial e as relações internacionais. Esse fenômeno consolidou o domínio do imperialismo norte-americano, que se manifestou de diversas maneiras, incluindo a imposição e a difusão do dólar como moeda de reserva internacional e a disseminação da cultura e ideologia americana. “Assim se transfundia o sangue por todos esses processos. Desenvolviam-se os países desenvolvidos dos nossos dias e se subdesenvolviam os subdesenvolvidos.” (Galeano, 2020, p. 116)
A partir do Acordo de Bretton Woods em 1944, o dólar foi estabelecido como a principal moeda de reserva, vinculada ao ouro, conferindo aos Estados Unidos uma vantagem econômica significativa. Essa hegemonia foi posteriormente reforçada pelo fim do padrão ouro-dólar em 1971, quando o dólar se tornou uma moeda fiduciária, sustentada principalmente pela confiança na economia americana e na estabilidade política do país. No entanto, a ascensão do dólar como moeda de reserva global não foi apenas resultado de forças econômicas naturais, mas também do poder político e militar dos Estados Unidos. A utilização do dólar como instrumento de política externa permitiu aos EUA impor sanções econômicas a países que desafiavam seus interesses, exercendo um controle indireto sobre a economia mundial. Além disso, o dólar foi frequentemente utilizado como arma em guerras econômicas e disputas geopolíticas, como forma de pressionar adversários e recompensar aliados.
A disseminação da cultura e ideologia americana pelo mundo, juntamente com o uso predominante do dólar como moeda de reserva internacional, reforça a hegemonia dos Estados Unidos no cenário global. A difusão cultural é vista como uma forma de neocolonialismo e hegemonia cultural, alimentando movimentos de resistência e anti-imperialismo. Além disso, o uso do dólar como moeda de reserva internacional cria vulnerabilidades sistêmicas na economia global, levando a crises financeiras e disputas comerciais que minam a estabilidade e a confiança no sistema monetário internacional. Essa dependência do dólar reforça as desigualdades estruturais e as relações de poder entre os países centrais e periféricos, conforme observam os teóricos da Teoria da Dependência.
Assim, a necessidade de desdolarização do mundo surge como uma resposta a essas desigualdades estruturais e à concentração de poder nas mãos dos Estados Unidos. Uma maior diversificação das moedas de reserva internacional e uma redução da influência cultural americana podem contribuir para um sistema mais equilibrado no âmbito global. A esse respeito será tratado adiante.
A DESDOLARIZAÇÃO COMO PROCESSO DECOLONIAL E OS PRINCIPAIS IMPACTOS DA NOVA ORDEM MUNDIAL
Quanto mais liberdade é concedida aos negócios, mais prisões precisam ser construídas para aqueles que sofrem com as consequências desses negócios. Ou seja, significa dizer que ao expandir a liberdade empresarial, ocorre um agravamento das disparidades e injustiças sociais, levando a um aumento no número de indivíduos marginalizados e encarcerados pelo sistema. Essa dinâmica não apenas atende aos interesses do mercado predominante, mas também resulta em lucros para investidores estrangeiros que exploram os mercados internos. Eduardo Galeano recorda o que advertia o presidente norteamericano Woodrow Wilson, por volta de 1913: “Já se ouviu falar de concessões feitas pela América Latina para o capital estrangeiro, mas não de concessões feitas pelos Estados Unidos para o capital de outros países (...). É que nós não fazemos concessões”. (Galeano, 2020, p. 17). A afirmação do presidente norte-americano ressalta a discrepância no tratamento dispensado ao capital estrangeiro em comparação com o nacional, evidenciando como os Estados Unidos priorizavam seus próprios interesses em detrimento dos interesses de outras nações, e possuíam as rédeas para subjugar os povos do terceiro mundo, como é possível observar:
Ele estava convicto: “Um país”, dizia, “é possuído e dominado pelo capital que nele foi investido”. E tinha razão. Pelo caminho perdemos até o direito de nos chamarmos americanos, embora os haitianos e os cubanos já estivessem inscritos na História, como novos povos, um século antes que os peregrinos do Mayflower se estabelecessem nas costas de Plymouth. Agora, para o mundo, América é tão só os Estados Unidos, e nós quando muito habitamos uma sub-América, uma América de segunda classe, de nebulosa identidade. (Galeano, 2020, pp.17-18)
Desde a consolidação dos Estados Unidos como a principal potência econômica global após a Segunda Guerra Mundial, o dólar americano tem desempenhado um papel central nas transações internacionais e nas reservas monetárias mundiais. Segundo a última pesquisa trienal do Banco de Compensações Internacionais (BIS), fechada em abril de 2022, entre 1999 e 2019, cerca de 96% das transações globais foram realizadas em dólar (BIS, 2022).
O dólar detém o controle global desde a Conferência de Bretton Woods, em 1944, no período final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Na ocasião, o economista britânico John Maynard Keynes defendia um sistema de moeda comercial internacional, conhecido como "Plano Keynes", enquanto o norte-americano Harry Dexter White advogava por um sistema baseado no dólar, lastreado pelo padrão-ouro. Embora a proposta de Keynes parecesse mais coerente em um mundo em busca de paz e estabilidade, os Estados Unidos impuseram sua influência. White, que faleceu em 1948, persistiu nos anos finais de sua vida para estabelecer o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Assim, consolidou-se o modelo que orienta o comércio internacional há oitenta anos. (Solomon,1979).
Em síntese, os Estados Unidos emergiram da Segunda Guerra Mundial como a principal potência econômica, detendo a maior parte das reservas de ouro. Essa posição privilegiada conferiu ao país uma influência significativa na definição das políticas econômicas globais. O sistema estabelecido em Bretton Woods fixou o valor do dólar em relação ao ouro, no qual um dólar correspondia a aproximadamente um grama de ouro. As demais moedas tinham taxas de câmbio fixas em relação ao dólar, mas ajustáveis conforme necessário (Block, 1989).
No entanto, após os anos 1970, a crise do dólar e o fim do Acordo de Bretton Woods não resultaram na falência do dólar ou do Sistema Monetário Internacional. Em vez disso, o sistema se ajustou ao novo padrão, revelando uma verdade antiga: o poder está por trás da moeda. A "verdade da moeda" não depende mais do respaldo em ouro, prata ou cunhagem, mas sim da consolidação da moeda internacional como a mais poderosa. Celso Furtado questiona: "Quantos países têm o privilégio de emitir moeda de curso internacional, como os Estados Unidos? Quantos têm grandes reservas de ouro e moedas conversíveis para proteger sua própria moeda e socorrer seus bancos no exterior em tempos de crise? Quantos têm poder financeiro para controlar os preços de produtos primários que importam? E quantos têm direito de veto em instituições internacionais que concedem empréstimos e criam liquidez?" (Furtado, 1983).
Apesar do surgimento de outras potências econômicas, como a China e a União Europeia, a predominância das transações internacionais em dólar persiste. Isso leva os países a manterem reservas significativas desta moeda, sujeitando-os a perdas decorrentes da volatilidade cambial e os tornando vulneráveis às flutuações do dólar. Além disso, empréstimos denominados em dólar, concedidos por instituições como o FMI, muitas vezes são condicionados à adoção de políticas específicas pelos países devedores, o que é notável, por exemplo, na atual agenda do Ministro da Fazenda do Brasil, Fernando Haddad.
A supremacia do dólar tem sido historicamente justificada pela solidez e centralidade da economia dos Estados Unidos, o que reforça a confiança na moeda. No entanto, para além das crises econômicas, a atitude dos Estados Unidos exacerbou uma “guerra” contra o dólar. Essa postura é marcada pela utilização do seu poder como uma ferramenta contínua de subjugação de outros países, através de sanções cada vez mais severas e do bloqueio dos ativos internacionais daqueles que desafiam os status quo defendidos por eles. Essa prática é evidente nos casos da Venezuela, Afeganistão, Rússia, Líbia, Irã, entre outros. Diante desse cenário, surge o movimento de desdolarização, que busca reduzir a dependência do dólar como principal moeda utilizada globalmente em transações e reservas monetárias.
Várias foram as ferramentas e dinâmicas e fluxos adotados para diminuir a dependência do dólar, e contornar a “regra do jogo” em favor dos países subdesenvolvidos. Essa realidade também se reflete no comércio entre países como Argentina e Brasil. Desde 2004, o Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML) permite transações diretas entre os dois países utilizando o peso argentino e o real brasileiro, sem a necessidade de conversão para dólar. No entanto, devido à desconfiança e à inconveniência de operar em dólar, o SML ainda é utilizado em apenas uma parcela reduzida do comércio bilateral.
Além disso, Moniz Bandeira destaca que o Brasil, ao promover a criação da UNASUL na reunião de Cusco, tinha um objetivo estratégico de transformar não apenas a si mesmo, mas toda a América do Sul, em uma potência global, tanto economicamente quanto politicamente. Essa integração visava mais do que apenas comércio, focando também na soberania territorial e na competição com o mundo desenvolvido. O século XXI foi visto como o momento para consolidar essa integração regional, especialmente entre Brasil e Argentina, diante de um mundo dominado pelas mega-corporações americanas e pela dolarização econômica. Bandeira enfatiza que tanto o Brasil quanto a Argentina não deveriam aceitar a preeminência dos Estados Unidos como definitiva, buscando uma multipolaridade global. (Bandeira, 2008)
O historiador continua, destacando a importância para o Brasil e a Argentina de consolidar o MERCOSUL e formar a Comunidade Sul-Americana de Nações como um sistema econômico e político unificado. Ele observa um sistema mundial altamente competitivo e violento, onde os Estados Unidos buscam concentrar o poder global. A globalização tem sido caracterizada pelo domínio crescente das mega-corporações americanas e pela transformação dos exércitos dos países neo-colonizados em forças policiais para proteger os interesses do capital financeiro e promover a dolarização das economias. No entanto, ressalta que o sistema mundial tende a se tornar multipolar, apesar da preeminência temporária dos Estados Unidos. Nesse contexto, Brasil e a Argentina não devem aceitar essa preeminência como definitiva, rejeitando assim o papel de meras províncias avançadas do grande império. (Bandeira, 2008).
Nesse sentido, para o sociólogo e cientista político brasileiro, Hélio Jaguaribe, a Argentina e o Brasil ao formarem uma aliança sólida, estável e confiável, estarão estabelecendo as bases para consolidar o MERCOSUL e promover a integração sul-americana, garantindo um destino histórico grandioso. Caso falhem em fazê-lo, correm o risco de perder sua identidade nacional e qualquer protagonismo na história, tornando-se apenas uma geografia. Segundo Jaguaribe, a chave para preservar essa identidade nacional, assim como a dos demais países sul-americanos, está na formação de uma aliança estratégica sólida e confiável entre Argentina e Brasil, à qual se deve agregar, o mais rapidamente possível, a Venezuela. Essa tríade A-B-V certamente conduzirá à consolidação do MERCOSUL e, por conseguinte, da Comunidade Sul-Americana de Nações (Jaguaribe, 2008).
À esse respeito, entre as principais decisões, destacou-se a promoção da convergência dos Acordos de Complementação Econômica entre o MERCOSUL, a Comunidade Andina de Nações (CAN), o Chile, a Guiana e o Suriname, além da reafirmação das áreas prioritárias definidas em Cusco. A criação da CASA foi fruto de um acordo político que buscava a integração econômica e social dos povos da América do Sul. Em contrapartida, na IV Cúpula das Américas em Mar del Plata, foi reafirmado o abandono da proposta de ALCA. Apesar da tentativa dos Estados Unidos e do presidente do Panamá de continuarem discutindo a criação de uma zona de livre comércio hemisférica, a liderança de Kirchner, Chávez e Lula consolidou a visão latino-americanista e sul-americanista. O pronunciamento marcante do presidente venezuelano, considerado o sepultamento da ALCA, enfatizou a importância da união para derrotar o imperialismo e promover uma vida melhor para os povos. Esse momento simbólico foi acompanhado por manifestações, representando a mudança de paradigma na integração regional, priorizando o desenvolvimento nacional dos países sul-americanos (IPEA, 2014).
Cerca de dois anos depois, em 2006, a Declaração de Cochabamba, na Bolívia, propôs um novo modelo de integração para o Século XXI. O documento enfatiza a solidariedade, cooperação, e busca por equidade, redução da pobreza e fortalecimento do multilateralismo. Princípios como soberania, paz, democracia, direitos humanos e harmonia com a natureza são reafirmados. A declaração destaca a importância de ações conjuntas nas áreas comercial, financeira, industrial, cultural e migratória, com foco na superação de assimetrias, estabelecimento de um contrato social, integração energética e desenvolvimento de infraestrutura para a conectividade regional. (IPEA, 2014).
Em contrapartida, o conceito dos BRICS surge em um estudo de 2001, elaborado pelo economista-chefe da Goldman Sachs, Jim O'Neil, intitulado “Building Better Global Economic BRICs”, ganhando destaque nos meios econômico-financeiros, empresariais, acadêmicos e de comunicação, sendo posteriormente adotada por Brasil, Rússia, Índia e China como base para uma parceria política. Em 2011, a África do Sul se juntou ao grupo, que passou a ser conhecido como BRICS. O peso econômico dos BRICS é considerável, com esses países representando uma parcela significativa do crescimento econômico global. O PIB combinado desses países, incluindo a África do Sul, já supera o dos Estados Unidos ou da União Europeia, tanto em termos nominais quanto em paridade de poder de compra. Até 2006, apesar do conceito existente, os BRICS não estavam formalmente organizados em um mecanismo de cooperação. Isso mudou com uma reunião de chanceleres dos quatro países à margem da 61ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2006. A partir desse encontro, o Brasil, Rússia, Índia e China começaram a colaborar de forma mais coordenada, formando o grupo BRIC. Com a adesão da África do Sul em 2011, o grupo tornou-se conhecido como BRICS.
Desde 2020, o PIB combinado dos cinco países que então compunham o BRICS ultrapassa o G7, que inclui os Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Inglaterra, Itália e Canadá. A ascensão da China como segunda maior economia do mundo, por si só, invalida a noção de que o G7 engloba as principais potências econômicas, tornando essa ideia obsoleta. Como se verifica no gráfico a seguir:
Nesse sentido, verifica-se que a tendência atual aponta para o surgimento de outros pólos de dinamismo econômico, independentes e autônomos. Segundo o pesquisador de relações internacionais Oliver Stuenkel, a crise financeira de 2008 expôs a vulnerabilidade do sistema financeiro, colocando em dúvida sua legitimidade. No entanto, foram os efeitos da Cúpula de Londres que evidenciaram o poder de barganha temporariamente amplificado, permitindo aos BRICS definir a agenda política da época, o que culminou no acordo de cotas do FMI em 2010 (Stuenkel, 2017). Essa discussão também ressurgiu no Mercosul, onde começou-se a cogitar uma moeda de referência regional, um substituto do dólar no comércio entre os países membros. Diante disso, o BRICS, têm potencial para concretizar medidas concretas em direção à desdolarização, dada a magnitude de suas economias. Com a inclusão de novos membros em 2024, o grupo assume um papel ainda mais relevante na economia mundial, especialmente nos setores de energia e financeiro. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, trazem um poder financeiro considerável para o grupo devido às suas reservas de petróleo e gás. Além disso, a proposta de efetuar transações internas em moeda local e até mesmo a criação de uma moeda de referência própria para as transações intra-bloco, como o R5, são medidas viáveis devido ao peso das economias dos países membros (IPEA, 2020).
Outras medidas incluem a valorização das moedas locais dos países do BRICS e o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), que pode emprestar em moeda local, reduzindo o risco cambial. Essas iniciativas têm potencial para aumentar a credibilidade das moedas dos países membros do NBD e contribuir para a desdolarização gradual das economias dos BRICS. Dados recentes do BIS revelam estabilidade nas moedas de referência para transações cambiais, com o dólar mantendo posição dominante, mas o uso crescente do renminbi sugere uma tendência à diversificação das moedas de reserva. O estudo do banco ING delineou o caminho para superar o dólar: dominar o mercado internacional de dívidas. Os Panda Bonds, como é chamado o mercado de dívida emitida em renminbi, representam o principal desafio para os Estados Unidos nesse segmento. No entanto, Perez-Saiz et al. (2023), em estudo recente do FMI com dados da plataforma Swift, destacam a inércia no sistema monetário global, que, conforme a pesquisa trienal do (BIS, 2022) concentra-se nas principais moedas, incluindo o dólar (44%), o euro (15%), o iene (8,5%) e a libra (6,5%), mas também sugerem que rupturas geopolíticas e avanços tecnológicos podem acelerar mudanças em direção a um padrão monetário mais multipolar. Nesse contexto, a internacionalização do renminbi ilustra essa tendência.
Nesse sentido, o aumento do uso do ouro monetário como reserva internacional sugere uma busca por ativos alternativos em meio à instabilidade financeira e geopolítica. A diversificação das reservas internacionais, com redução gradual da dependência do dólar, pode indicar um movimento em direção a uma ordem econômica mais equitativa. Em suma, a desdolarização desafia o domínio econômico das potências ocidentais e sugere uma transformação nas relações monetárias globais. Esse processo, embora incipiente, pode ter implicações significativas na redistribuição do poder financeiro e na promoção da diversidade econômica e inclusão global. A esse respeito será tratado adiante.
POR ESSA NOVA GLOBALIZAÇÃO
No funcionamento de um sistema econômico, há diferentes tipos de decisões tomadas, algumas visando restringir o poder de certos agentes e outras buscando direcionar esse poder para objetivos mais amplos. Identificar os centros decisórios é crucial para entender a coordenação das ações entre os diversos agentes econômicos, que possuem diferentes níveis de poder. Essa coordenação é essencial para garantir coerência nas ações econômicas e, às vezes, resulta na presença de um centro hegemônico que influencia as demais decisões e ações (Furtado, 1965).
Em seu tempo, o geógrafo, cientista, jornalista, advogado e professor universitário brasileiro, considerado um dos mais renomados intelectuais do Brasil no século XX, Milton Santos (1926-2001) afirmou, na em sua obra intitulada “Por uma outra globalização”: “De fato, para a grande maior parte da humanidade a globalização está se impondo como uma fábrica de perversidades.” (Santos, 2023, p. 25). Em seu contexto, o autor está a se referir sobre a desigualdade estrutural do processo de acumulação, sobre o qual se desenvolveu a riqueza dos atuais impérios, no qual a perversidade sistêmica subjacente a essa regressão da humanidade está intrinsecamente ligada à adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que agora definem as ações hegemônicas. Essas adversidades são, em última análise, atribuíveis ao atual processo de globalização, que amplifica e perpetua dinâmicas de competição desenfreada.
O autor considera a globalização como o ápice da internacionalização do mundo capitalista e enfatiza a necessidade de analisar tanto o estado das técnicas quanto o estado da política para compreender esse fenômeno. Apesar de geralmente serem abordados separadamente, esses aspectos sempre estiveram interligados na história humana, influenciando seu curso. Assim, no final do século XX, os avanços científicos deram origem a um sistema de técnicas, liderado pelas tecnologias da informação, que possibilitaram uma presença global desse novo sistema técnico. (Santos, 2022). O que permite afirmar que: “Na história da humanidade é a primeira vez que tal conjunto de técnicas envolve o planeta como um todo e faz sentir, instantaneamente, sua presença. Isso, aliás, contamina a forma de existência das outras técnicas, mais atrasadas.” (Santos, 2022, p.32)
O autor examina a evolução do capitalismo, identificando períodos de estabilidade seguidos por crises. Atualmente, estamos em uma fase de sobreposição entre período e crise, com conflitos entre variáveis que exigem novos ajustes. Esta crise é singular, caracterizada por mudanças simultâneas em escala global. A tecnologia da informação e o controle do tempo aceleram processos hegemônicos, marginalizando os não hegemônicos. Soluções não estruturais exacerbam a crise, enquanto a normatização excessiva gera inflexibilidade, resultando em descontentamento social. A ideologia da globalização perpetua outras crises ao impor uma visão uniforme. Apesar de promover a unificação global, o progresso tecnológico também resulta em uma globalização injusta e opressiva. Surgem dois tipos de domínio: financeiro e informacional, que moldam as interações sociais. A intensificação da competição alimenta novas formas de totalitarismo, enquanto a violência estrutural permeia as ações estatais, empresariais e individuais, contribuindo para uma perversidade sistêmica. Diante desse cenário, a internacionalização do capital financeiro expande-se por várias razões. Grandes empresas multinacionais estão cada vez mais vinculadas a instituições financeiras, utilizando as poupanças dos países onde operam. Essas poupanças integram o sistema financeiro global, gerando crédito e dívida para os países anfitriões. O dinheiro que deixa o país retorna na forma de crédito e dívida, refletindo a lógica atual da internacionalização financeira, onde o pagamento prioritário da dívida é crucial. Isso confere uma considerável autonomia ao sistema financeiro, estabelecendo uma relação complexa entre finanças e produção, com o dinheiro puro desempenhando um papel central e estimulando a especulação financeira.
À vista disso, a aceitação de um modelo econômico em que o pagamento da dívida é prioritário implica a aceitação da lógica desse dinheiro. Nas condições atuais de economia internacional, o financeiro ganha uma espécie de autonomia. Por isso, a relação entre a finança e a produção, entre o que agora se chama economia real e o mundo da finança, dá lugar àquilo que Marx chamava de loucura especulativa, fundada no papel do dinheiro em estado puro. Este se torna o centro do mundo. É o dinheiro como, simplesmente, dinheiro, recriando seu fetichismo pela ideologia. O sistema financeiro descobre fórmulas imaginosas, inventa sempre novos instrumentos, multiplica o que chama de derivativos, que são formas sempre renovadas de oferta dessa mercadoria aos especuladores. Logo, a especulação exponencial assim redefinida vai se tornar algo indispensável, intrínseco, ao sistema, graças aos processos técnicos da nossa época, que impulsionada pela tecnologia e pela velocidade das transações, dita uma dinâmica na qual o dinheiro exerce um controle poderoso e até mesmo prejudicial sobre as estruturas econômicas e sociais.(Santos, 2022). Diante disso, o autor afirma o que segue:
Por isso, é lícito falar de tirania do dinheiro. Se o dinheiro em estado puro se tornou despótico, isso também se deve ao fato de que tudo se torna valor de troca. A monetarização da vida cotidiana ganhou, no mundo inteiro, um enorme terreno nos últimos 25 anos. Essa presença do dinheiro em toda parte acaba por constituir um dado ameaçador da nossa existência cotidiana. (Santos, 2022. p.56)
Assim, o surgimento de um sistema de perversidade, resultado e causa da legitimidade do dinheiro puro, da competição intensa e do poder absoluto, marca uma transição onde ética e política são ignoradas. Paralelamente, uma nova visão econômica, centrada no dinheiro puro, afeta todas as nações, moldando a percepção da dívida internacional e a regulação da vida individual pelo consumo. Essa ideologia impulsiona a acumulação desenfreada, gerando um ciclo de medo e desamparo alimentado pela busca incessante por dinheiro. A competição, incentivada por essa ideologia, muitas vezes desafia valores morais, levando à violência. A obtenção de dinheiro puro exige o uso igualmente puro do poder, frequentemente recorrendo à força, enquanto a falta de responsabilidade social perpetua o medo generalizado e a violência estrutural. Compreender essa dinâmica é essencial para abordar questões como a dívida social e a violência funcional na vida cotidiana.
Diante disso, “a perversidade deixa de se manifestar por fatos isolados, atribuídos a distorções da personalidade, para se estabelecer como um sistema.” (Santos, 2022, p. 71). De modo que os papeis dominantes na sociedade, legitimados pela ideologia da competitividade, incluem a mentira disfarçada como segredo comercial, o engano sob a máscara do marketing, e a dissimulação e cinismo disfarçados de táticas e estratégias. Essa cultura glorifica a esperteza em detrimento da sinceridade e a avareza em detrimento da generosidade, levando ao abandono da solidariedade, da ética e da política. A democracia plena é substituída por uma democracia de mercado, onde o poder é distribuído de acordo com os interesses do sistema globalitário. No entanto, segundo o autor, os países subdesenvolvidos perceberão, mais cedo ou mais tarde, que a cooperação com os países desenvolvidos em um sistema tão desigual apenas reforça sua dependência.
Nesse contexto, críticos costumam evidenciar o fato das potências emergentes questionarem as fundações que formam a base da ordem liberal, ou seja, do consenso liberal de políticas substantivas pós-guerra. No entanto, na prática observa-se um direcionamento ao multilateralismo como único meio para subsistir e adaptar-se para tanto. Como sintetiza Stuenkel: “Ao se perguntar se a China, ou outras potências emergentes tem interesse em desfazer essa estrutura internacional, deixa-se de levar em consideração que elas precisam dela para manter sua posição nas próximas décadas em vista de modernizar suas economias e se tornarem países ricos” (Stuenkel, 2018, p.193).
O autor argumenta que a transição para uma nova forma de globalização não surgirá do centro do sistema, como em fases anteriores do capitalismo, mas sim dos países subdesenvolvidos. Apesar do obstáculo representado pelo sistemismo da globalização, cada país pode criar modelos alternativos e estabelecer associações horizontais com seus vizinhos, reformulando os blocos regionais e promovendo uma cooperação mais profunda (Santos, 2022). A ascensão do BRICS ilustra a questão, e se desenvolve como realização dessa prática. No entanto, para Stuenkel “a pergunta não é se a hegemonia dos EUA terá fim, mas como isso irá ocorrer e o que tomará seu lugar” (Stuenkel, 2017, p.245)
Assim, elabora o autor a partir de Ikenberry: A ordem de hoje é “uma ordem hierárquica com características liberais”. Nesse contexto, as potências emergentes aceitam as características liberais e irão mantê-las, mas busca mudar a hierarquia que sustenta o sistema. (Ikenberry apud Stuenkel, 2017, p.248).
Diante das condições atuais do mundo, há um potencial significativo para uma grande transformação. No entanto, o desdobramento desse processo dependerá da forma como as oportunidades são aproveitadas pela esfera política. Embora as técnicas materiais possam parecer irreversíveis em sua natureza física, sua interpretação e uso podem ser redefinidos. A mesma materialidade que hoje contribui para um mundo hierarquizado pode servir como base para sua libertação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Há um crescente debate global sobre os privilégios e abusos ligados à hegemonia do dólar mantida pelos EUA na economia mundial. Muitos países almejam uma economia internacional mais multipolar, mas enfrentam resistência. Os BRICS têm potencial para implementar medidas concretas nesse sentido, como o aumento do uso de moedas locais em transações comerciais e a criação de uma moeda de referência comum.
No entanto, o dólar ainda domina o sistema financeiro internacional, e qualquer mudança será gradual e desafiadora. Nesse contexto, as disputas entre EUA e China complicam ainda mais o cenário, com os EUA buscando conter o avanço chinês e a China adotando uma abordagem cautelosa em relação à internacionalização do yuan. Diante disso, é crucial analisar as dinâmicas de poder para compreender os moldes, sobre os quais o futuro do mundo se constroi. Por outro lado, é possível vislumbrar a possibilidade de um mundo alternativo por meio das conquistas do BRICS, ainda que de modo incipiente.
Assim, as bases materiais do presente período, como a uniformidade da tecnologia, a convergência dos momentos e o conhecimento global, são elementos nos quais o grande capital se apoia para construir uma possível horizontalidade econômica, representando um processo decolonial, de real independência. No entanto, essas mesmas bases técnicas têm o potencial de servir a outros propósitos se direcionadas para diferentes fundamentos sociais e políticos. As condições históricas do final do século XX apontavam para essa possibilidade, que agora se torna cada vez mais visível, com o BRICS desempenhando um papel fundamental na transformação do sistema internacional, promovendo uma nova ordem a se estabelecer na história.
REFERÊNCIAS
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