O tradutor de poemas, junto do fiscal de rendas
Saíram de bar em bar, para dançar
E o poeta, embora morto, pois suicidou-se com um tiro no peito
Pediu-nos para ressuscitá-lo, e assim foi feito
Muito embora, se não fosse pedido, teria sido
Ressuscitado seria, e não demoraria muito
Nem mais que dois dias, um anjo o visitaria
Para beijar-lhe os pés, e o perfumaria
Com o cheiro dos céus, algo de mel
Incenso, algo do gênero, não sei o quê
E removeria a pedra de seu túmulo
Para notar o novo mundo, já posto
Atento voltado à terra inteira.
Algo como mistério-bufo, que mais cedo teria escrito
Não sei se desgosto, não sei se piedade
Não sei o que o poeta iria sentir
Vendo que presos aos nichos das casas
A família ausente de si
Na qual o pai não foi Universo,
Nem a mãe, pelo menos a Terra.
A revolução fora do eixo
E uns e outros a questionar
Se é redonda a maldita Terra
Mas na prisão há algum tempo
Existiu sob a Terra um Caetano a cantar sobre a Terra
Talvez gostaria de ouvi-lo
Amaria ouvir "Amor"
Interpretado por Renato Braz
Toca suas músicas, por vezes nos bares
Nos quais o tradutor de poemas, junto do fiscal de rendas
Bebem e dançam, sem medo
Talvez sem conceito e significado
Será?
Será que a poesia mata?
Matou Sergei Iessiênin.
Entre outros tantos
Como sintoma intraduzível
Como bebida intragável
Para ser mastigada sem o sabor verdadeiro
Não por ser russa, ou de outro idioma qualquer
Mas, pois, despercebida e assassina - por detrás da estante -
Em instantes sussurra amarga, ouça quem consegue ouvir
Ou aguarde o alarde do som de um tiro
Que ressuscitará onde tangencia o sangue
Regando a Terra de martírio
Rasgando o véu do intraduzível
Iluminando a alvorada, semeando o chão
Toda pessoa que deixa voluntariamente a vida
Leva consigo o mistério de sua decisão.
Dorme ó meu amigo poeta,
Vives no seio de quem cativas
Florece, desabrocha e transborda
És, tu mesmo, a própria Revolução
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