Na mansa ribeira desta lagoa,
Onde a água repousa e não tem pressa,
Me abençoo na brisa que esvoa,
Como a voz de uma prece que começa.
Feito de um santo incenso o ardor imenso,
Num sacro momento em que já nem penso.
É quando a vida, enfim, se destina,
Para além do que a mente concebeu,
E a felicidade, assim, repentina,
Me alegra o peito que de si se esqueceu.
Qual rio que transborda do seu leito,
Rompendo a vã rotina do que é feito.
Vejo uma igreja no interior da onda,
Mistério líquido que a luz semeia,
E deixo que a minh'alma lá se esconda,
Como o profeta Jonas na baleia.
São águas que murmuram o que não vejo,
Ondas antigas que me vêm do Tejo.
O Tejo é rio que desce para o mar,
A lagoa é um espelho onde me sinto.
E, entre a brisa que bate e o meu pensar,
Sou apenas mais água no infinito.
Guardo a alegria, a igreja e a ilusão,
No interior mais fundo do coração.
Lagoa da Pampulha, Belo Horizonte 06 de junho de 2026.
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