segunda-feira, 8 de junho de 2026

Na Estrada

Os passageiros nas suas viagens,

Cruzam por mim, num segredo complexo.

Há, por trás das efêmeras imagens,

Em cada ser, um nítido mistério.

E eu sigo o meu caminho a cada instante,

Cruzando o tempo e a estrada, caminhante.


Deixo o azul catarinense e a brisa,

A espuma branca presa à beira-mar.

A roda gira e a alma não avisa

Que já começa a dor de recordar.

Subo a serra e, ao rasgar a neblina,

O Paraná me surge, amplo e antigo,

Onde a alta araucária se reclina

E leva a saudade das ondas comigo.


Mas o destino aponta o norte agora,

Ao coração de ferro, ao chão profundo.

O mar de águas o pensamento ignora,

E um mar de morros mostra-me outro mundo.

Nas veias de Minas o meu olhar vagueia,

A rodovia é um risco na imensidão,

E, entre o silêncio que me rodeia,

Belo Horizonte surge, qual visão.


Chego à poeira e ao fim do que sentia,

Trazendo no peito a serra, o sal, o frio.

Quem chega não é quem de lá partia,

Que a alma, na viagem, é como um rio.

Muda de águas a cada novo passo,

No horizonte, o mistério enfim se encerra.

E o viajante é só um vago traço,

Buscando a si mesmo enquanto cruza a terra.


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