Os passageiros nas suas viagens,
Cruzam por mim, num segredo complexo.
Há, por trás das efêmeras imagens,
Em cada ser, um nítido mistério.
E eu sigo o meu caminho a cada instante,
Cruzando o tempo e a estrada, caminhante.
Deixo o azul catarinense e a brisa,
A espuma branca presa à beira-mar.
A roda gira e a alma não avisa
Que já começa a dor de recordar.
Subo a serra e, ao rasgar a neblina,
O Paraná me surge, amplo e antigo,
Onde a alta araucária se reclina
E leva a saudade das ondas comigo.
Mas o destino aponta o norte agora,
Ao coração de ferro, ao chão profundo.
O mar de águas o pensamento ignora,
E um mar de morros mostra-me outro mundo.
Nas veias de Minas o meu olhar vagueia,
A rodovia é um risco na imensidão,
E, entre o silêncio que me rodeia,
Belo Horizonte surge, qual visão.
Chego à poeira e ao fim do que sentia,
Trazendo no peito a serra, o sal, o frio.
Quem chega não é quem de lá partia,
Que a alma, na viagem, é como um rio.
Muda de águas a cada novo passo,
No horizonte, o mistério enfim se encerra.
E o viajante é só um vago traço,
Buscando a si mesmo enquanto cruza a terra.
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