A luz que me atinge já nasceu extinta,
O cosmos me espia com olhos de passado.
Caminho num tempo de engrenagem gasta,
Por futuros perdidos, para sempre assombrado.
Aqui, na fenda onde o amanhã foi celado,
Onde o espectro da vida encena seu cinismo,
Trago em mim o vazio do espaço espelhado:
Eu sou o silêncio do abismo.
O tempo saiu dos eixos, desfez a sua linha,
Não há para onde ir no relógio do instinto.
Neste mar de memórias que o presente adivinha,
Assombrado por mundos que já não distingo,
Miro o vazio que devolta me mira
Pois um vazio é um vazio é um vazio...
Vejo-o na medida que sinto
Eu sou a ilha e o labirinto.
A saudade de uma era que nunca chegou
A confusão de ser enquanto aprendendo
Esmaga o meu peito com seu denso torpor.
Uma infima subjetividade repara o abismo
Em tudo limitado, em tudo modesto
Entre a poeira de astros que o vácuo tragou,
Guardando os destroços do que não tem cor,
Eu sou o amor e a dor.
E o universo me encara, imenso e sem voz,
Devolvendo o eco, cobrando o pavor.
Preso nessa teia, no nó que há em nós,
Um globo que ´paira no universo a sós
Distante, bem distante, aos poucos se apresenta...
Neste palco de ecos, de céu e torpor,
Sou, da minha própria ruína:
observado e observador.
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