segunda-feira, 1 de junho de 2026

Assombro

 A luz que me atinge já nasceu extinta,

O cosmos me espia com olhos de passado.

Caminho num tempo de engrenagem gasta,

Por futuros perdidos, para sempre assombrado.

Aqui, na fenda onde o amanhã foi celado,

Onde o espectro da vida encena seu cinismo,

Trago em mim o vazio do espaço espelhado:

Eu sou o silêncio do abismo.


O tempo saiu dos eixos, desfez a sua linha,

Não há para onde ir no relógio do instinto.

Neste mar de memórias que o presente adivinha,

Assombrado por mundos que já não distingo,

Miro o vazio que devolta me mira

Pois um vazio é um vazio é um vazio...

Vejo-o na medida que sinto

Eu sou a ilha e o labirinto.


A saudade de uma era que nunca chegou

A confusão de ser enquanto aprendendo

Esmaga o meu peito com seu denso torpor.

Uma infima subjetividade repara o abismo

Em tudo limitado, em tudo modesto

Entre a poeira de astros que o vácuo tragou,

Guardando os destroços do que não tem cor,

Eu sou o amor e a dor.


E o universo me encara, imenso e sem voz,

Devolvendo o eco, cobrando o pavor.

Preso nessa teia, no nó que há em nós,

Um globo que ´paira no universo a sós

Distante, bem distante, aos poucos se apresenta...

Neste palco de ecos, de céu e torpor,

Sou, da minha própria ruína: 

observado e observador.

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