sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Direito é um Guarda que Dorme

Nas andanças noturnas de bêbado, posteriores ao seminário de direito e sua respectiva confraternização final, vejo em meio às ruas desertas um guarda de plataforma de ônibus dormindo junto a uma bicicleta. Penso em relação ao bordão "o direito não guarda quem dorme" como "o direito é um guarda que dorme".

Eu havia engolido o veneno dourado dos doutores. O vinho embriagante da confraternização misturava-se no meu estômago aos dogmas putrefatos do seminário: a isonomia, o sujeito de direito, a sagrada e imparcial balança. Ah, os canalhas de toga e taça na mão! Vomitavam latim e jurisprudência sobre o sangue fresco da história, celebrando o contrato social enquanto o mundo lá fora rangia seus dentes de engrenagem. Abandonei o banquete dos hipócritas. Caminho agora pelas artérias pálidas desta cidade de necrotérios asfaltados, ébrio, incendiado pela lucidez alucinatória dos desgraçados. A noite tem a cor do carvão e da mais-valia.

Então, sob o esqueleto de vidro e ferro de uma plataforma de ônibus — esse matadouro iluminado a neon onde, de dia, a carne assalariada se espreme —, surge uma visão de miséria e chumbo. Um guarda. O cão de guarda do capital, vestido com sua farda de autoridade barata, comprada a troco do próprio suor. Mas ele não rosna. Ele dorme. A cabeça tombada no peito, o corpo entregue à gravidade de um cansaço secular, exausto de vigiar o vazio da propriedade alheia. Ao seu lado, repousa uma bicicleta enferrujada: o triste maquinário de sua mobilidade oprimida, o seu único meio de produção de movimento. Um centauro urbano abatido pelo sono da classe operária.

O álcool ferve nas minhas têmporas e a memória traz de volta o eco das vozes empoladas dos catedráticos: Dormientibus non sucurrit jus. "O direito não socorre aos que dormem! O direito não guarda quem dorme!". Mentira. Mentira atroz, forjada nas fornalhas da burguesia e polida nos gabinetes refrigerados. E os que dormem em privilégio. Que dormem em seus berços de ouros. Que dormem na ignorancia a eles permitida, lícita, recomendada. O direito para estes: um cão que ladra e não morde. Bêbado sob a luz amarela do poste, eu rio até que os pulmões queimem. Olho para este homem, este proletário alienado que defende o feudo que o esmaga, e a verdade desponta em minha mente como um sol doente. A máxima está invertida. O direito não é a espada vigilante dos justos; o direito é, ele mesmo, este guarda que dorme. E como o como um guarda que dorme, não guarda nada. Cu sem dono. Qual a justiça é a conveniência do mais forte.

Sim! A Lei é um vigia sonâmbulo, um totem flácido encostado na ferrugem da sua própria inércia. Pau mole da burguesia. Finge proteger a totalidade, mas dorme o sono pesado e cínico da indiferença material, enquanto os abutres do capital saqueiam a noite sem serem incomodados. O direito dorme diante da fome, ronca perante o desabrigo e sonha com a abstração dos códigos. Só desperta — num sobressalto raivoso de cassetetes, algemas e prisões — se a mão do miserável ousar tocar o altar da propriedade privada.

Deixo o guarda entregue ao seu sono de chumbo e ideologia. Cuspo no asfalto molhado. A brisa gélida da madrugada não consegue apagar a febre da minha revolta. Que a jurisprudência continue a sonhar os seus delírios de igualdade, encostada em sua bicicleta inútil. A verdadeira aurora será terrível para os que dormem nos palácios, pois quando a manhã romper, vermelha e implacável, não haverá cão de guarda ou tribunal capaz de deter o despertar furioso dos oprimidos.

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