I
Do gládio da Justiça o sol fulgura,
No verbo magistral, sereno e forte.
A lei será do povo o claro norte,
E se levanta intacta, firme e pura.
Que a letra expresse a suma claridade,
Livre dos vãos sofismas da traição.
Ipsis litteris, clama a sã razão,
No pálio colossal da majestade.
Não mudo uma vogal do que é traçado,
Nem curvo a fronte ao despotismo irado,
Que tenta amordaçar o meu país.
A norma impõe-se, augusta, em sua glória,
E deixo meu libelo para a história:
A letra pura é a alma do juiz!
II
Mas se a lei já nasce podre na gênese,
E a forma não renega o seu mercado,
Onde o ser, a produto rebaixado,
Padece sob o jugo desta nêmesis!
A isonomia vã, que é só engodo,
Que esconde o vil comércio do labor,
Transforma o magistrado num feitor,
E mói, na iníqua lei, o povo todo.
O tal "sujeito", com sua igualdade,
É a máscara da vil mercadoria,
Pra encobrir a cruel disparidade.
Por sob a toga austera e de nobreza,
Não brilha o justo que a nossa alma pedia,
Mas dita os seus acórdãos a riqueza!
III
Se a lei não curva a fronte à lágrima do povo,
E serve ao potentado e ao torpe explorador,
Que o templo da Justiça, ao ver um mundo novo,
Desabe sob o peso e o golpe do labor!
A púrpura não lava a nódoa da traição,
Do pacto mais iníquo em prol do capital;
Se a corte se rebaixa ao dogma da opressão,
Que o fogo purifique a lei e o tribunal!
Sob o pálio imortal das justas liberdades:
"De cada qual a cota da sã capacidade;
E a cada qual o justo para as necessidades!"
Das cinzas e do pó do paço derrocado,
A turba forjará a nova sociedade,
Deixando o velho Estado em chamas, fulminado!
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