quarta-feira, 27 de maio de 2026

Mutatis Mutandis

I

Do gládio da Justiça o sol fulgura,

No verbo magistral, sereno e forte.

A lei será do povo o claro norte,

E se levanta intacta, firme e pura.


Que a letra expresse a suma claridade,

Livre dos vãos sofismas da traição.

Ipsis litteris, clama a sã razão,

No pálio colossal da majestade.


Não mudo uma vogal do que é traçado,

Nem curvo a fronte ao despotismo irado,

Que tenta amordaçar o meu país.


A norma impõe-se, augusta, em sua glória,

E deixo meu libelo para a história:

A letra pura é a alma do juiz!


II

Mas se a lei já nasce podre na gênese,

E a forma não renega o seu mercado,

Onde o ser, a produto rebaixado,

Padece sob o jugo desta nêmesis!


A isonomia vã, que é só engodo,

Que esconde o vil comércio do labor,

Transforma o magistrado num feitor,

E mói, na iníqua lei, o povo todo.


O tal "sujeito", com sua igualdade,

É a máscara da vil mercadoria,

Pra encobrir a cruel disparidade.


Por sob a toga austera e de nobreza,

Não brilha o justo que a nossa alma pedia,

Mas dita os seus acórdãos a riqueza!


III

Se a lei não curva a fronte à lágrima do povo,

E serve ao potentado e ao torpe explorador,

Que o templo da Justiça, ao ver um mundo novo,

Desabe sob o peso e o golpe do labor!


A púrpura não lava a nódoa da traição,

Do pacto mais iníquo em prol do capital;

Se a corte se rebaixa ao dogma da opressão,

Que o fogo purifique a lei e o tribunal!


Sob o pálio imortal das justas liberdades:

"De cada qual a cota da sã capacidade;

E a cada qual o justo para as necessidades!"


Das cinzas e do pó do paço derrocado,

A turba forjará a nova sociedade,

Deixando o velho Estado em chamas, fulminado!

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