terça-feira, 28 de abril de 2026

Fora da Ordem

Não é o direito um céu puro e neutro,

Mas forma histórica à troca ajustada;

Igual na lei, na vida é desigualada,

Onde o valor governa em rito cego.


A norma, e o abstrato sujeito de direito,

Oculta a vida ao cálculo atrelada;

Liberta a forma, a carne é dominada,

E o justo cede ao lucro certo e pétreo.


Se a lei coincide à ordem do capital,

Obedecer já não é razão bastante:

É cumpliciar-se ao curso estrutural.


Surge, então, fora da ordem, num instante

Em que a recusa afirma o material —

E a justiça irrompe insurgente e vibrante.


Assim o justo, em luta, à norma se rebela,

E a forma cede ao peso da existência,

Revela-se, na crua imanência,

Que a lei não rege — antes, a sequela.


Pois sob o código austero que se vela

A ordem, dita em nome da prudência,

Lateja a muda e férrea obediência

À lógica do ganho que a modela.


Não há, no fundo, múltiplo direito:

Há um só eixo a tudo subjacente,

Que ao mundo imprime chicote e leito.


É lei sem texto, império permanente,

Que faz do homem meio do proveito —

E no direito a acumulação: única lei vigente.

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