Não é o direito um céu puro e neutro,
Mas forma histórica à troca ajustada;
Igual na lei, na vida é desigualada,
Onde o valor governa em rito cego.
A norma, e o abstrato sujeito de direito,
Oculta a vida ao cálculo atrelada;
Liberta a forma, a carne é dominada,
E o justo cede ao lucro certo e pétreo.
Se a lei coincide à ordem do capital,
Obedecer já não é razão bastante:
É cumpliciar-se ao curso estrutural.
Surge, então, fora da ordem, num instante
Em que a recusa afirma o material —
E a justiça irrompe insurgente e vibrante.
Assim o justo, em luta, à norma se rebela,
E a forma cede ao peso da existência,
Revela-se, na crua imanência,
Que a lei não rege — antes, a sequela.
Pois sob o código austero que se vela
A ordem, dita em nome da prudência,
Lateja a muda e férrea obediência
À lógica do ganho que a modela.
Não há, no fundo, múltiplo direito:
Há um só eixo a tudo subjacente,
Que ao mundo imprime chicote e leito.
É lei sem texto, império permanente,
Que faz do homem meio do proveito —
E no direito a acumulação: única lei vigente.
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