No tempo estéril morre a juventude,
Vivem do mínimo, sem ter escolha.
O sonho é crime aos olhos da abastança,
E a dor herdada impõe-se por virtude.
Não têm direito ao teto ou ao sossego,
Pagam aluguel ao riso do senhor.
Trabalham muito, tendo o pouco negado —
Do esforço alheio se constrói o esplendor.
Enquanto isso, os filhos da fortuna
Brindam champanhe às custas da miséria,
Comem a vida em porcelana impuna
E acham justiça no fulcro hereditário.
São impostores — farsa bem vestida,
Mentem na tribuna e na televisão:
Dizem que é livre quem não tem a vida
Nem o futuro em sua própria mão.
Nos vendem curso, fé, meritocracia,
Nos dão conselhos sobre "empreender",
Mas vivem bem da velha hipocrisia
De herdar riqueza e nos fazer sofrer.
Ó geração transviada, injustiçada!
Que paga a guerra que jamais jurou,
És gado manso, porém sem manada,
Em terra seca que ninguém arou.
Talvez um dia surja o novo canto,
Do povo exausto em fogo reerguido,
E a juventude — antes silente e brando —
Seja a justiça em corpo renascido.
Mas hoje o mundo é deles — os senhores,
Com suas falas frias, dissimuladas;
E somos nós, de calos e rancores,
A classe morta em vidas estagnadas.
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