Resumo: Este artigo propõe uma leitura estética e política dos movimentos musicais post-punk e dark wave como manifestações culturais de dissidência frente à ordem do capitalismo tardio. Através de uma interlocução com os escritos de Mark Fisher, em especial sua noção de realismo capitalista e comunismo ácido, busca-se compreender como essas manifestações artísticas encenam, ainda que de forma não programática, uma crítica à colonização da subjetividade e à supressão da imaginação utópica pelo realismo capitalista. Argumenta-se que tais estéticas operam como sintomas e, simultaneamente, como resistências culturais frente à clausura do possível imposta pela racionalidade neoliberal.
Introdução
A produção cultural dos anos finais do século XX é marcada por um tensionamento crescente entre as formas tradicionais de organização da vida social e os imperativos do capitalismo globalizado. Nesse contexto, o post-punk e a dark wave se apresentam como expressões sonoras e visuais a margem do espaço da indústria cultural para constituírem-se enquanto formas de elaboração estética de um mal-estar estrutural. Distanciando-se do niilismo reativo do punk, essas estéticas elaboram um pessimismo lúcido, que revela tanto os efeitos psíquicos da modernidade tardia quanto os impasses da imaginação política. Mark Fisher, em obras como Capitalist Realism e Ghosts of My Life, denuncia como o capitalismo colonizou a própria imaginação, criando a impressão de que "não há alternativa" (TINA — there is no alternative). O comunismo ácido (acid communism), projeto inacabado que Fisher esboçava antes de sua morte, propunha a reativação de uma imaginação utópica radical, inspirada por experiências psicodélicas, pela contracultura dos anos 60 e por sensibilidades coletivas não capturáveis pelo mercado, no qual propõe a reativação de formas sensíveis de resistência à colonização da vida pela lógica capitalista.
1. Post-Punk e Dark Wave como Estéticas do Desencanto
O post-punk, surgido no final da década de 1970, caracteriza-se por uma abordagem musical e lírica mais introspectiva, experimental e dissonante em relação ao punk clássico. Grupos como Joy Division, Siouxsie and the Banshees e The Cure utilizam-se de atmosferas sonoras sombrias e de uma poética da alienação para expressar sentimentos de vazio, desorientação e desagregação subjetiva — sintomas típicos de uma sociedade que, como aponta Fisher (2009), reduz toda experiência à lógica do capital.
Já a dark wave, enquanto desdobramento ainda mais etéreo e melancólico, radicaliza esse percurso estético ao incorporar elementos eletrônicos, minimalistas e uma vocalização distante que evoca o desaparecimento do sujeito moderno. Nessa sonoridade, reconhece-se uma recusa deliberada do otimismo publicitário e da positividade tóxica que marcam a cultura neoliberal, abrindo espaço para a tematização de afetos "negativos" como a tristeza, o tédio, o luto e a desilusão — afetos que, para Fisher, são banidos da esfera pública contemporânea justamente por desestabilizarem o consenso capitalista.
2. Realismo Capitalista e o Comunismo Ácido
Em Capitalist Realism: Is There No Alternative?, Fisher (2009) descreve o "realismo capitalista" como a sensação generalizada de que o capitalismo é não apenas o único sistema viável, mas o único imaginável. Essa condição produz um esvaziamento da política e da cultura, substituindo o desejo coletivo por adaptações individuais ao sofrimento. A depressão, a ansiedade e o esgotamento são, nesse contexto, efeitos colaterais sistêmicos e não meros distúrbios pessoais.
Diante desse cenário, Fisher propõe o conceito de comunismo ácido como uma estratégia de recuperação da imaginação utópica, inspirada em experiências psicodélicas, na contracultura dos anos 1960 e em formas de vida coletivas e sensíveis que escapem à reificação neoliberal. O comunismo ácido visa reencantar a política, rompendo com a dicotomia entre racionalidade e desejo, e mobilizando afetos positivos (como o êxtase, o prazer e a solidariedade) como formas de resistência.
3. A Estética como Campo de Luta: Convergências
O que aproxima as estéticas post-punk e dark wave do comunismo ácido de Fisher é precisamente a recusa à naturalização do presente. Ambas se constituem como formas de enfrentamento da colonização estética e afetiva promovida pelo neoliberalismo, ainda que por vias distintas. Enquanto o comunismo ácido busca reativar a potência transformadora de experiências coletivas, o post-punk e a dark wave expõem, muitas vezes de forma dolorosa, o luto por futuros que não se realizaram — um tema central em Ghosts of My Life (Fisher, 2014), onde o autor argumenta que a cultura contemporânea é assombrada pelos espectros de um porvir cancelado.
A fragmentação da identidade, a estetização do colapso psíquico e a experimentação sonora não são, nesse sentido, apenas recursos estilísticos, mas práticas de desvio e resistência simbólica. Tais estéticas operam como espaços de suspensão da lógica capitalista e de gestação de outros modos de sentir, mesmo que em forma embrionária ou melancólica. Sua função política reside, portanto, não em proclamações programáticas, mas na fissura que introduzem na ordem sensível vigente.
4. Considerações Finais
Se é verdade que a cultura foi, em grande parte, capturada pela lógica da mercadoria, também é verdade que, nas suas margens e ruínas, persistem formas de resistência estética que ainda sinalizam para o que Fisher chamou de a promessa do novo. O post-punk e a dark wave não oferecem saídas prontas nem projetos revolucionários consolidados, mas operam como arquivos afetivos e sensíveis de um tempo em que era possível imaginar futuros outros — e talvez o comunismo ácido esteja justamente aí: na recusa em aceitar que o que existe é tudo o que pode existir.
Referências
FISHER, Mark. Capitalist Realism: Is There No Alternative? Winchester: Zero Books, 2009.
FISHER, Mark. Ghosts of My Life: Writings on Depression, Hauntology and Lost Futures. Winchester: Zero Books, 2014.
JAMESON, Fredric. Archaeologies of the Future: The Desire Called Utopia and Other Science Fictions. London: Verso, 2005.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
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