Pascal Kirchmair, 2018
Lendo Ulysses. A obra, por si só, é enigmática — qualquer um que dela tenha conhecimento sabe disso. Sem redundâncias ou a pretensão de apresentar o que já é amplamente conhecido, gostaria de registrar minha experiência com este livro. Demorei alguns dias para percorrer suas mais de 900 páginas, que narram uma história ocorrida em um único dia — mais precisamente em 18 horas — em que Leopold Bloom sai e retorna ao apartamento, recriando o mito do “judeu errante” ao perambular pelas ruas de Dublin, em um paralelo invertido ao percurso de Odisseu para regressar a Ítaca.
Muitas coisas se passaram nesses dias de leitura, em que o livro me fazia companhia em viagens, estabelecimentos, encontros e afins. O livro marcava sua presença, um calhamaço que parecia uma Bíblia, que inclusive levei comigo a um encontro de estudos bíblicos em Curitiba, pelo fato de não ter uma Bíblia para levar. Nunca soube ao certo qual Bíblia ter, por conta das diversas traduções existentes, e por ter em vista que muito dela se perdeu. Mas já a li diversas vezes, diretamente e por tabela, pois a liturgia católica contempla a leitura dela. Basta frequentar missas por um ano para ouvi-la quase como em um audiobook, com pausas para músicas, um exercício de senta-levanta e outras coisas mais. Mas, voltando ao livro, recordo que, nesse encontro de estudos, havia um senhor que me perguntou qual era a edição da minha Bíblia. Disse que não era uma Bíblia, mas ele não me ouvia bem e insistiu em perguntar sobre o tradutor, enquanto já enfiava os dedos no livro para procurar no verso das primeiras páginas. "Antonio Houaiss", disse, sem que eu tivesse tempo de corrigir o equívoco. Ele não conhecia, afirmou que ia pesquisar, anotou em um papel e perguntava para os que passavam sobre a tradução da Bíblia de Houaiss. "Você conhece? Não. E você? Também não." Era óbvio. Achei graça disso.
Mas, para mim, a leitura de James Joyce foi rodeada de coincidências e situações engraçadas. Diversas vezes notei, em variadas situações, as pessoas à minha volta dizerem as exatas palavras que eu estava lendo. O mesmo aconteceu com músicas. Em uma palestra um professor com o qual pretendia orientação do mestrado reparou o livro e disse ter desistido de sua leitura, um mês depois desisto, por novos motivos, não do livro, mas da orientação dele. Também fiz amizade com um senhor do Alasca em um Hostel em que fiquei hospedado com dois jovens da Bélgica, duas moças da Alemanha, uma moça brasileira e um jovem do Chile. A única coisa em comum entre eu e esse senhor alasquiano era ter lido Ulysses, coincidencia rara, mas que possibilitou o inicio de uma conversa bacana.
Em outra ocasião, fui a uma galeria de arte assistir a um filme, e o sujeito que o legendou tinha o e-mail: leopoldbloom@algumacoisa... Em um trecho do filme, havia um músico cujo nome depois eu queria lembrar, mas não conseguia. Voltei à leitura. "Alta Dublin", sussurrou o livro, em inglês, "High-Dublin". Hig... Elin. Lembrei de Jacques Higelin, por coincidência, pai de Arthur Higelin, o compositor que eu queria lembrar. Depois disso, participei de um grupo de leitura de Shakespeare, e eis que o livro dedica um capítulo inteiro ao bardo, que li no exato dia do encontro. Termino um relacionamento, e lá estava o nome da moça gravado no livro. Não que eu me considere o centro do universo — mas, por vezes, quase parece... Coincidências, claro. Ou, talvez, seja o algoritmo da vida conspirando. Às vezes, penso que penso demais e, por isso, noto essas coisas com mais frequência do que deveria.
De qualquer modo, é inegável que há uma aura quase mística em torno desse livro, embora, para mim, isso seja apenas um charme simbólico. Não acredito em tais mistérios. A questão é, hoje raciocino melhor, se o inconsciente é estruturado como linguagem, como propôs Lacan, então este livro é genialmente e, ao mesmo tempo, terrivelmente articulado. Lacan, inclusive, se dedica a obra de Joyce para elaborar sobre o sinthoma, e dedica-se a ele no seminário XXIII. Em Ulysses, cada capítulo segue um método específico, mas o que particularmente mais me fascina é “O Gado do Sol”, que pretende simbolizar a fecundidade da vida e usa a língua para “desenhar” a própria evolução da linguagem. Algo assombroso.
Também li, por recomendação do professor e amigo Jeison, Uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce de Caetano Galindo — tradutor da obra. Recomendo igualmente a quem interessar. Concordo com a tese de que toda a teoria do romance de Bakhtin poderia derivar-se de Ulysses, mas discordo de algumas opções de tradução feitas por Galindo, embora admire as razões que o levaram a tomá-las.
Por fim, há ainda outras considerações que prefiro guardar para conversas de bar ou rituais secretos... Mas, sem dúvida, trata-se de um livro que abre incontáveis portas culturais, pois os limites da nossa linguagem são os limites do nosso mundo, como diria Wittgenstein. Ao mesmo tempo, nos relembra da nossa condição demasiadamente humana, errante, que anseia por voltar a um lugar que, talvez, não saiba qual é, ou, quem sabe, até saiba... na esperança de voltar, deitar-se à sombra de uma palmeira que já não há. Colher a flor, que já não dá. Caminhar errante, desejoso, tropeçando em coincidências e inconscientes, por pensar demais.
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