quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Ítaca: um lugar no mundo

Esse vazio infindo que habita o peito, diz a psicanálise, provém do espelho. De reconhecer a própria imagem, mas não só isso, de percebê-la alheia ao mundo, separada e, portanto, incompleta. Nesse sentido, intuitivamente, todos nós buscaremos fazer parte de algo—uma tradição, religião ou grupo—visando a certeza de não estar só, como uma existência perdida no mundo. O consumo direciona-se a essa realização; não são à toa os esforços das propagandas que sempre buscam anexar ao produto a imagem de um grupo, de um vir-a-ser que só se alcança através dele.

Mas, no fim, toda promessa é vã, pois desse mundo viemos e vamos em solitude. O mais racional, a princípio, parece ser reconhecer essa determinação e lidar com ela. Preparando-se para os adeuses. No entanto, parece impossível contentar-se em viver nesse estado e deixar de querer encontrar-se. Já dizia o velho Aristóteles: somos animais políticos, sociais por natureza, ou ao menos para sobreviver a ela. Mas não é necessária a mais elevada racionalidade para intuir isso; basta a experiência. 

Quando se encontra esse lugar no mundo, encontra-se um tesouro, o bem mais precioso da vida. A certeza de uma felicidade plena, de um aconchego e serenidade. Acha-se a virtude da vida, de forma a fazê-la valer. Encontra-se o próprio encontro de si, numa amizade e intimidade perfeitas. Sente-se a vida em cuidado e dignidade.

Quando se perde o seu lugar no mundo, perde-se tudo. Perde-se a si mesmo. Quando não há um lugar para ir, e querer ficar, a vida toda desanda. Talvez seja essa a razão dos andarilhos nunca se fixarem em lugar algum: justamente para não lembrar que não há nenhum lugar para si. Mas quando perde-se esse lugar depois de encontrado em certeza, só se pode querer regressar a ele.




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