quinta-feira, 28 de março de 2024

O desencontro

Quando pequeno era, já me angustiava,

Na vida, até hoje, é uma constante.

Talvez, desde que engatinhava,

Mas ainda assim, sei ser contente.


Nem tudo me é cativante,

Pouco me orgulha o que sou.

Tampouco me importa onde me perdi,

Mas sim o que foi que me levou.


O rubro negro do vazio d'alma,

Preenchido à toa por toda gente,

Tampando a superfície aparente,

Com qualquer coisa que valha.


Esse vazio que não tampei,

Expõe aberto o túmulo escancarado,

Espelho do fio da navalha,

Que o reflexo narcísico escancara.


Tenho saudade do que fui,

Daquilo que poderia ser,

Sabendo que, noutro lugar,

Teria o mesmo do que sou.


Quanto mais possibilidades,

Mais angústias, mais saudades.

Isso a dor do amor me ensinou,

Ainda cedo, e por aí me enveredou.


Por ser desejante, Árabe errante,

Querendo ser todas as coisas,

Fragmentei-me ao me esculpir,

Como pérolas a rolar na lápide.


Como criatura morta,

Que carrega algo de belo,

Esperando a hora certa,

Para o seu próprio desfecho.


Em todo caso ou caminho,

Em toda sina ou viagem,

Tudo leva ao mesmo destino,

De sonho e impossibilidade.


Eis a lájea fria, morada final:

Não ser como Deus, o pecado,

Sendo apenas o pobre diabo,

Ciente do bem e do mal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário