O esquecimento é um dom, isto é, uma virtude, uma dádiva. Poder-se-á dizer que não e, ao contrário, que trata-se, na verdade, de um vício, uma desgraça, um prejuízo. Como alguém que esquece o que leu e tem de ler novamente gosta de fazê-lo? Ora, se na posse da lembrança se possui a própria sabedoria, como não desejar, então, lembrar de tudo para saber de tudo, acumulando saberes enquanto o tempo permite? Alguns poderiam protestar que, não sendo possível acessar e conhecer todas as coisas em vida, poderíamos, como espécie, ao menos não nos esquecer daquilo que tomamos ciência.
Assim, o único benefício do esquecimento talvez fosse esquecer-se dos maus acontecimentos. Mas a questão é que, desde os primórdios da espécie humana, o esquecimento desempenha um papel fundamental no desenvolvimento cognitivo. Os primeiros seres humanos dependiam da memória para sobreviver e se adaptar ao ambiente em constante mudança. No entanto, o esquecimento também era necessário para abrir espaço para novas experiências, aprendizados e, principalmente: para que o individuo não desacreditasse totalmente da sua própria espécie e cometesse suicídio.
Ao longo da história, a transmissão oral de conhecimentos foi uma forma essencial de preservar a cultura e o conhecimento das gerações passadas. No entanto, esse processo envolvia um certo grau de esquecimento, pois as informações eram reinterpretadas e adaptadas às circunstâncias e interesses presentes. Essa flexibilidade cognitiva permitiu que os seres humanos se adaptassem a diferentes ambientes e contextos culturais. No entanto, há uma questão muito mais oportuna, e essencialmente bonita nesse processo: o esquecimento nos obriga a definir critérios de prioridade e, consequentemente, eleger uma hierarquia de valor. Pois, na condição na qual não podemos recordar de todas as coisas, temos de optar por aquilo que mais desejamos recordar, e assim cumprimos com o melhor sentido etimológico do termo "recordar": do latim "re-cordis", voltar a passar pelo coração.
Assim, a faculdade de agir impõe as angústias dessa liberdade. Pois em uma linha cronológica de início, meio e fim, como a vida, o tempo é precioso na medida em que se esvai, fazendo com que cada escolha tenha uma medida de valor intangível, que só poderá ser medida pelo coração de cada um, como no versículo: "pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração" (Mateus 6:21). Além disso, o esquecimento nos permite o desejo de recordar, e fortuitamente esquecer daquilo que não convém.
Eu mesmo sempre tive uma facilidade enorme de esquecer das coisas depressa, e não me importar mais com elas - o que já foi objeto de espanto de algumas pessoas - inclusive. Compreendo isso como uma certa indiferença à elas, claro, mas mais exatamente como aquela característica do viajante, de carregar consigo apenas aquilo que lhe é caro e necessário. Como no texto de Pizarnik a León Ostrov: "En verdad, muchas cosas dejaron de importarme. Y me alegro. Que me roben las maletas y yo pueda viajar con las manos libres." Quando criança, adorava quando esquecia o guarda-chuva pelos lugares, e assim não tinha mais de carregá-lo, podendo caminhar pela chuva feito um passarinho.
Acredito que minha indiferença em relação a tantas coisas se dá justamente, e proporcionalmente, pelo interesse absurdo por outras que, necessariamente, passam pelo coração. A essas, minha alma, ou meu inconsciente se direciona de maneira natural, e consequentemente se desvia e se esquece de tantas outras coisas. Trata-se de uma condição inevitável para todos nós: caminhar para um lado é, consequentemente, não ir pelo outro. Assim, toda a vida, como uma equação de possibilidades, resulta no fim aquilo que somos a partir do que poderíamos ser, e as lembranças, como fotografias - umas mais desbotadas que outras - representam partes desse caminho, que nunca poderemos compreender em sua totalidade, mas apenas como um mosaico de fragmentos recortados na memória.
À vista disso, o dom do esquecimento consiste neste exato detalhe: obriga-nos a recordar daquilo que realmente importa e dar um novo sentido à existência, como horizonte de possibilidades que se desvela à nossa frente. Assim, dialeticamente, toda lembrança deve passar pelo coração de modo a ser ressignificado por novas experiências e percepções, possibilitando uma nova conscientização dessas memórias, fruto e dádiva do próprio esquecimento.
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