quarta-feira, 19 de julho de 2023

O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo







Fora da vitrine, nada é o mesmo

O efêmero valor, se desvanece

Assim a moda, o luxo e o lixo

Tudo se esvai, não permanece


Na flora, a beleza em suave apelo,

Padecem também, apressadas se vão,

Assim, o mundo se renova, é singelo,

O tempo escorre, em eterna transformação.


Mas o caráter fetichista da mercadoria

Consiste no animismo que a reveste

Como num vestido de alta-costura

Do couro arrancado de um animal silvestre


Sem saber que um macaco vestido de púrpura

Permanece a ser o mesmo animal

Ainda que tenha na cabeça uma Mitra

Não é ela que lhe torna episcopal


Mas é a ideia que veste as cabeças

Colocada lá por algum "alguém"

Feito um boné dos yankees

Que se veste sem saber o que/por quê


Assim, o segredo do feitiço é a fantasia

Reside na arte de os tolos convencer

De não questionar, de obedecer

Seguir cego, calado e morrer


Como dito, o feitiço está na fantasia

Que faz as massas nunca questionar,

Dançar cegamente a melodia,

E uma imensidão inteira ignorar


Já a verdade, meu bem, mora no poço

É preciso mergulhar para enxergar,

Que também faleceu (por ter pescoço) enforcado

Aquele que teve o chão para alcançar


Na teia da existência, o enigma se esconde,

E o tempo, impiedoso, tece seu destino,

Entre a flor que se despede e o sol que resplandece,

Seguimos todos nós em busca de sentido.


Mas contra a ignorância esnobe, uma ode se ergue,

Ao brilho único de Madame Satã!

A fim de que o vermelho do sangue dos pobres

Um dia valha mais que o de um salto Louboutin


Nenhum comentário:

Postar um comentário