quarta-feira, 22 de novembro de 2023

O colapso da mente bicameral

Foi um anjo torto, pois caído,

Como aquele do poema de Drummond,

Me deu a mão, tirou-me para dançar,

Disse-me: "Sentado, não podes ficar."

Não tinha sexo, pois era andrógino,

Mas, por querer me agradar, fez-se mulher

De curto vestido e corpo esculpido,

Preparou-me os olhos para nova ilusão.


A dançarina, enfim, me jurou

Mil paixões, talvez um amor,

E feito o destino,

As cartas lançou,

Se lançando em meus braços,

Se amarrando feito laço

Ao pescoço, como um nó de gravata

Ou forca e sentença de morte:

"Eis então minha sorte."


Previ então meu fim

Quando apertou o laço:

"Tenha dó de mim,

Sou novo demais,

Nem avisei meus pais

Que morreria agora

Nessa fantasia, eis o meu fado."

Então, abraçado ao diabo,

Ela falante, eu calado.


No entanto, eis a surpresa:

Aprendi a dançar e cantar,

E tendo a mulher nas mãos,

Tive assim o mundo inteiro

E meu próprio destino.

Ao lhe despir da roupa,

Descobri todo o mistério:


Era eu mesmo aquela mulher,

O desejo e a culpa,

O som e a fúria,

A ética e a tática,

A alma e a forma,

A voz e o ouvido,

Masculino e feminino,

A guerra e a paz.


Era eu mesmo aquela mulher,

Essa síntese de tantas,

Que me fez ter o que se requer.

E hoje, muito mais contente,

Em coisa alguma tenho afã,

Em tudo sou indiferente.

Muito obrigado, Satã.






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