Foi um anjo torto, pois caído,
Como aquele do poema de Drummond,
Me deu a mão, tirou-me para dançar,
Disse-me: "Sentado, não podes ficar."
Não tinha sexo, pois era andrógino,
Mas, por querer me agradar, fez-se mulher
De curto vestido e corpo esculpido,
Preparou-me os olhos para nova ilusão.
A dançarina, enfim, me jurou
Mil paixões, talvez um amor,
E feito o destino,
As cartas lançou,
Se lançando em meus braços,
Se amarrando feito laço
Ao pescoço, como um nó de gravata
Ou forca e sentença de morte:
"Eis então minha sorte."
Previ então meu fim
Quando apertou o laço:
"Tenha dó de mim,
Sou novo demais,
Nem avisei meus pais
Que morreria agora
Nessa fantasia, eis o meu fado."
Então, abraçado ao diabo,
Ela falante, eu calado.
No entanto, eis a surpresa:
Aprendi a dançar e cantar,
E tendo a mulher nas mãos,
Tive assim o mundo inteiro
E meu próprio destino.
Ao lhe despir da roupa,
Descobri todo o mistério:
Era eu mesmo aquela mulher,
O desejo e a culpa,
O som e a fúria,
A ética e a tática,
A alma e a forma,
A voz e o ouvido,
Masculino e feminino,
A guerra e a paz.
Era eu mesmo aquela mulher,
Essa síntese de tantas,
Que me fez ter o que se requer.
E hoje, muito mais contente,
Em coisa alguma tenho afã,
Em tudo sou indiferente.
Muito obrigado, Satã.
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