O vinho escorre rubro na videira,
Dioniso dança, o deus da embriaguez.
No frenesi da orgia verdadeira,
Afasta o tédio e a triste lucidez.
Mas surge a cruz, e a nova lei domina,
O deus dos bosques ganha chifre e rabo.
O dogma, o instinto livre contamina,
E a fúria da floresta vira o Diabo.
O tempo avança, a treva perde o horror,
E a besta medieval veste casaca.
É Mefistófeles, o tentador,
O lorde frio que pelo pacto ataca.
Porém o mito cruza o mar revolto,
Buscando o sol do solo brasileiro.
O lorde europeu de novo é solto,
Ao som dos atabaques no terreiro.
A ideologia alemã esvaece,
A culpa ocidental perde a textura.
O antigo deus da taça resplandece
Na encruzilhada, em meio à noite escura.
O chifre, o pacto, o inferno e o vinho cru,
Fundem-se em um, a rir de frente à lua:
Dioniso e Diabo encarnam em Exu,
É Laroyê! O dono desta rua!
A forma passa, a essência é mantida,
Nessa linhagem mística e poética:
O primeiro aponta o valor da vida,
E o segundo, a própria dialética.
O terceiro, de gélida eloquência,
É a crítica do mundo, o dedo em riste;
Mas o último é a própria consciência,
Onde a verdade humana enfim existe.
Por isso, sem as culpas do passado,
Senhor absoluto da jornada,
Desperta o teu instinto libertado:
E seja bem-vindo à encruzilhada!
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