terça-feira, 5 de maio de 2026

Travessia

O vinho escorre rubro na videira,

Dioniso dança, o deus da embriaguez.

No frenesi da orgia verdadeira,

Afasta o tédio e a triste lucidez.


Mas surge a cruz, e a nova lei domina,

O deus dos bosques ganha chifre e rabo.

O dogma, o instinto livre contamina,

E a fúria da floresta vira o Diabo.


O tempo avança, a treva perde o horror,

E a besta medieval veste casaca.

É Mefistófeles, o tentador,

O lorde frio que pelo pacto ataca.


Porém o mito cruza o mar revolto,

Buscando o sol do solo brasileiro.

O lorde europeu de novo é solto,

Ao som dos atabaques no terreiro.


A ideologia alemã esvaece,

A culpa ocidental perde a textura.

O antigo deus da taça resplandece

Na encruzilhada, em meio à noite escura.


O chifre, o pacto, o inferno e o vinho cru,

Fundem-se em um, a rir de frente à lua:

Dioniso e Diabo encarnam em Exu,

É Laroyê! O dono desta rua!


A forma passa, a essência é mantida,

Nessa linhagem mística e poética:

O primeiro aponta o valor da vida,

E o segundo, a própria dialética.


O terceiro, de gélida eloquência,

É a crítica do mundo, o dedo em riste;

Mas o último é a própria consciência,

Onde a verdade humana enfim existe.


Por isso, sem as culpas do passado,

Senhor absoluto da jornada,

Desperta o teu instinto libertado:

E seja bem-vindo à encruzilhada!

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