Um vento frio chora na abside escura,
A pedra basilar estremece em desalento;
A voz que governava o firmamento
Caiu na mais pura noite, tão profunda.
O trono de marfim está deserto,
O grande Olhar colheu a sua luz;
Nenhum sinal, nenhuma voz conduz
O peregrino neste mar aberto.
E no silêncio que o Senhor depara,
Onde a névoa dos séculos se estende,
Uma sombra sutil o altar ascende,
Veste a púrpura antiga e se declara.
Calam-se os céus na sua paz de outrora,
Mas na terra, em dialeto soberano,
Ergue-se o burocrata e o juiz humano:
"Deus se calou, mas eu vos falo agora."
Ventríloquos da ausência e do mistério,
Ditando leis à turba ajoelhada,
Fazem nascer do eco do seu nada
O dogma eterno de um novo império.
Ó doce irrealidade que definha!
Se o próprio Céu recusa o seu veredito,
O homem traduz o silêncio do Infinito
Para reinar na terra que era Minha.
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