segunda-feira, 18 de maio de 2026

Quando deus cala

Um vento frio chora na abside escura,

A pedra basilar estremece em desalento;

A voz que governava o firmamento

Caiu na mais pura noite, tão profunda.


O trono de marfim está deserto,

O grande Olhar colheu a sua luz;

Nenhum sinal, nenhuma voz conduz

O peregrino neste mar aberto.


E no silêncio que o Senhor depara,

Onde a névoa dos séculos se estende,

Uma sombra sutil o altar ascende,

Veste a púrpura antiga e se declara.


Calam-se os céus na sua paz de outrora,

Mas na terra, em dialeto soberano,

Ergue-se o burocrata e o juiz humano:

"Deus se calou, mas eu vos falo agora."


Ventríloquos da ausência e do mistério,

Ditando leis à turba ajoelhada,

Fazem nascer do eco do seu nada

O dogma eterno de um novo império.


Ó doce irrealidade que definha!

Se o próprio Céu recusa o seu veredito,

O homem traduz o silêncio do Infinito

Para reinar na terra que era Minha.

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