domingo, 29 de junho de 2025

A Física como Além do Além da Física

A Tentação de Santo Antão, Salvador Dalí  (1946)


Do ser ao concreto: o real contra a transcendência do real 

            A palavra metafísica não foi cunhada por Aristóteles, mas pelos seus editores, especialmente por Andrônico de Rodes, que organizou e classificou os escritos aristotélicos por volta do século I a.C. O termo ta meta ta physiká pode ser traduzido literalmente como "aquilo que vem depois da física" (meta = depois, physiká = escritos sobre a natureza). A princípio, a expressão era apenas uma indicação editorial: os tratados que vinham fisicamente após os livros de Física no corpus aristotélico. No entanto, a leitura filosófica da expressão rapidamente passou a entender esse “meta” também como aquilo que está para além da física, não apenas em ordem de leitura, mas em nível de realidade e abstração. Com isso, a Metafísica passou a designar uma investigação mais fundamental do que a física, que busca compreender o ser enquanto ser (tò òn hē òn) e os primeiros princípios e causas de todas as coisas, inclusive da própria natureza. Nesse contexto, a filosofa Marilena Chaui afirma que para Aristóteles “só há conhecimento da realidade (portanto, da permanência e do movimento dos seres) quando há conhecimento da causa.” (Chaui, 2025, p. 11-12).

À vista disso, o projeto metafísico aristotélico está ancorado em quatro causas que explicam o vir-a-ser de qualquer ente: a causa material, a causa formal, a causa eficiente e a causa final. Se a física se ocupa dos entes sensíveis e mutáveis segundo suas causas materiais e eficientes, a metafísica pretende apreender o que há de necessário, imutável e eterno — especialmente a causa formal (a essência) e a causa final, que pode ser compreendida como o fim último de cada ser (Aristóteles, 2024).

É nesse sentido que Aristóteles afirma que todos os homens desejam, por natureza, o saber — e que o saber mais elevado é aquele que busca as causas primeiras e os princípios do ser. Para tanto, ele introduz distinções fundamentais como ato e potência, substância e acidente, essência e existência. Seu pensamento culmina, mais especificamente no Livro XII da Metafisica, na postulação de um ente necessário e eterno, que não possui matéria, não muda, não é causado por outro, e que move o mundo como causa final: o Motor Imóvel, essência eterna e imóvel (Aristóteles, 2024). Nas palavras do Estagirita:

As essências são três. Uma é a sensível e, desta, uma é eterna, a outra corruptível [...] Da eterna é necessário apreender os elementos, quer seja um, quer sejam muitos. Outra é a imóvel, que alguns sustentam ser separada[…] Aquelas são assunto da Física, pois são com movimento; já a imóvel, se não partilhar com elas nenhum principio comum, concernirá a outra disciplina. (Met. XII, 1, 1069a 30 – 1069b 2).

Esse ente, que pensa a si mesmo (noēsis noēseōs), ocupa o ápice da hierarquia ontológica e cosmológica aristotélica. É ele que garante a inteligibilidade da realidade e justifica a ordem do cosmos. A Metafísica, assim, não apenas busca conhecer o que é mais real, mas também institui uma ordem do ser em que os entes inferiores são explicados e justificados por sua relação com os superiores, num movimento de causalidade que remete, por fim, a uma realidade imutável, suprassensível e eterna (Aristóteles, 2024).

Ao elaborar uma teoria das quatro causas — material, formal, eficiente e final —, Aristóteles, no primeiro livro da Metafisica, estrutura uma visão de mundo que privilegia a estabilidade e a finalidade, subordinando o movimento e a multiplicidade do mundo físico a uma ordem superior, fixa e eterna. Nesse contexto afirma a Professora Marilena Chaui, que em decorrência disto:

Temos, portanto, uma teoria geral para a explicação da realidade e de suas transformações que, na verdade, é a transposição involuntária de relações sociais muito determinadas para o plano das ideias. Quando o teórico elabora sua teoria, evidentemente não pensa realizar essa transposição, mas julga produzir ideias verdadeiras que nada devem à existência histórica e social do pensador. Até pelo contrário: o julgador pensa que, com essas ideias poderá explicar a própria sociedade em que vive (Chaui, 2025, p. 15).

Ou seja, toda teoria exprime, por meio de construções conceituais, uma determinada realidade social e histórica — independentemente de o pensador estar consciente ou não desse enraizamento. Quando ciente dessa determinação, o autor pode reavaliar criticamente suas formulações, abrindo a possibilidade de que elas contribuam para a compreensão das condições concretas que as tornaram possíveis. Em contrapartida, quando ignora essa gênese material, tende a absolutizar suas ideias, conferindo-lhes um estatuto de verdade onipotente, onisciente e onipresente, pretensamente válida em todos os tempos e lugares. Nesse gesto, incorre no risco de produzir, em vez de teoria crítica, mera ideologia. 

De fato, desenvolve Chaui, um dos traços distintivos da ideologia reside precisamente em dissociar as ideias das condições histórico-sociais que as engendram, tratando-as como entidades autônomas, puras e universais. Contudo, é a própria materialidade histórica que torna inteligível o pensamento e determina, em última instância, a eficácia — ou a falência — das ideias diante das contradições que lhes deram origem (Chaui, 2025).

Trata-se, portanto, de uma inversão característica da ideologia, pela qual a metafísica é elevada a uma posição superior à física, como se os princípios abstratos existissem independentemente dos processos concretos que os produzem.

Não por acaso, esse lugar de discurso torna-se objeto de disputa política, precisamente em razão de seu potencial uso ideológico e de sua função estratégica na produção e legitimação de determinadas visões de mundo, e conforme afirma Chaui: “a teoria das quatro causas consolidou-se no pensamento ocidental graças à filosofia e à teologia medievais. O pensamento medieval interpretou a herança aristotélica e deu continuidade a ela.” (Chaui, 2025, p. 13).

Essa estrutura, do ponto de vista do materialismo histórico (notadamente a partir da critica kantiana, mas evidentemente em Hegel e Marx) é problemática, pois, ao explicar a realidade concreta por meio de causas ideais e transcendentes, a metafísica reverte a relação entre matéria e ideia, justificando a física pela metafisica e naturalizando estruturas sociais e relações de poder a partir de uma suposta natureza essencial.

Como se entrevê, ainda que de modo sutil, na célebre representação de Michelangelo, A Criação de Adão, pode-se intuir uma subversão silenciosa do relato teológico tradicional: não seria o Criador a moldar a criatura à sua imagem e semelhança, mas antes a criatura a projetar o Criador segundo os contornos de sua própria consciência e historicidade. Séculos mais tarde, tal inflexão seria radicalizada por Sartre ao afirmar, com contundente clareza filosófica, que “a existência precede a essência” e “se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva (...)” (Sartre, 1987, p. 9).

Nesse contexto, Marx rompe e reafirma a metafisica ao propor uma “ontologia invertida”: não é a essência que determina a existência, mas a existência social — a práxis — que produz qualquer essência. No entanto, o ser humano, alienado de sua própria potência, projeta nos deuses, nas formas ideais ou nas estruturas sociais uma realidade invertida, onde aquilo que foi produzido (enquanto ideia) por ele mesmo aparece como algo dado, exterior e imutável, passando a interferir na práxis e, portanto existindo. Marx, retomando o argumento de Anselmo de Aosta e a crítica kantiana, dirá, nesse contexto que todos os deuses existiram. Nas palavras do autor:

(…) as provas da existência de Deus não passam de tautologia vazias – por exemplo, a prova ontológica nada diz além disto: ‘O que represento para como real é para mim uma representação real’ que atua sobre mim, e nesse sentido todos os deuses, tanto os pagãos como os cristãos, tiveram existência real. O velho Moloque não reinou? O Apolo de Delfos não constituiu um poder real na vida dos gregos? Nesse ponto, tampouco a crítica de Kant significa algo” (Marx, 2018, p.133).

A crítica da metafísica aristotélica também passa pela rejeição de seu princípio da não contradição, conceito central no livro Gamma (Livro IV) da Metafísica. Para Aristóteles, o ser é o que é, e não pode ser e não ser ao mesmo tempo (Aristóteles, 2024). Essa lógica exclui a contradição como motor do real, impondo ao mundo uma ordem coerente e estática. Hegel, ao contrário, faz da contradição o princípio do movimento e da verdade: o ser só se realiza por meio da negação, da superação dialética de suas próprias determinações. A identidade é resultado, não ponto de partida; e o real é contraditório em sua essência. Na Fenomenologia do Espírito, Hegel desenvolve que a consciência se forma em conflito com o mundo que ela mesma produz. O saber é processo, não adequação estática (Hegel, 2020). Essa concepção dinâmico-dialética do ser é retomada por Marx em chave materialista: não mais como desenvolvimento do espírito, mas como práxis histórica concreta.

A reificação e o fetichismo, conceitos centrais a partir de Marx, expressam essa dinâmica: relações sociais são convertidas em coisas, em essências que ocultam sua origem histórica. A metafísica, ao atribuir finalidades e formas ideais ao mundo, contribui para esse processo ao congelar o real em estruturas fixas, desistoricizando as relações humanas. Assim, o mundo aparece como obra de uma necessidade ontológica, e não como produto da ação humana. Portanto, a crítica materialista à metafísica é uma crítica ao pensamento que desliga o ser da história, que inverte predicado e sujeito, que supõe uma além física sobre a materialidade, e a coloca como além, ao invés de depois.

Ao contrário, torna-se cada vez mais premente reconhecer a necessidade de investigar as causas materiais a partir de suas contradições imanentes, a fim de fundamentar as ideias em constatações históricas, e não de naturalizá-las sob a forma de ideologia. Tanto Marx quanto Hegel — cada qual por sua via — operam uma crítica radical à metafísica, desmantelando seus alicerces abstratos para restituir ao mundo sua densidade histórica e dialética.

Todos os deuses, nesse horizonte, existiram — não enquanto entidades transcendentes, mas como projeções da alienação humana, formas ideológicas de objetivação de sua própria potência. Assim, todas as ideias podem, de fato, existir metafisicamente e, sob certas condições, realizar-se fisicamente. A questão fundamental, porém, reside em recusar sua naturalização quando desprovidas de mediação material, pois o ser não está dado: ele é produzido, desfeito e reconfigurado nas tensões concretas da práxis social.

Reivindicar ou recusar a metafísica, nesses termos, é menos um gesto de afirmação dogmática e mais uma abertura crítica para pensar e transformar o real a partir das contradições que efetivamente o constituem.


 Referências: 

ARISTÓTELES. Metafisica. Tradução de Vivianne Castilho Moreira. São Paulo: Vozes, 2024.

CHAUI. Marilena, Ideologia: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2025.

HEGEL. Georg Wilhelm. Fenomenologia do Espirito. São Paulo: Vozes, 2020.

MARX. Karl. Diferença entre a filosofia da natureza de Demócrito e a de Epicuro. São Paulo: Boitempo, 2018.

SARTRE. Jean Paul. O existencialismo é um humanismo. A imaginação: Questão de método. Seleção de textos de José Américo Motta Pessanha. Tradução de Rita Correira Guedes, Luiz Roberto Salinas Forte, Bento Prado Júnior. 3. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987.


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