terça-feira, 21 de novembro de 2023

Sussuros do destino

   

Self-Portrait with Death Playing the Fiddle, Arnold Böcklin.

    Às vezes, penso que o destino me sussurra ao pé do ouvido. Não como anjo, nem diabo. Mas como Kassandra, prevendo e me indicando o futuro, do qual duvido. Isso porque, noto coincidências o tempo todo, coincidências essas que me indicam a tomada de alguma decisão previamente, que quando feitas, coincidentemente, são assertivas. Isso produz uma sensação de determinismo, ou seja, de destino determinado previamente. Como se nosso fado fosse, de fato, obra de um terceiro. Além disso, que esse terceiro pudesse sussurrar-nos o êxito do caminho. Nesse caso,me agradaria mais uma "terceira" a sussurrar no ouvido. No entanto, não creio em determinismos, além dos biológicos e socioeconômicos. Me incomoda como as pessoas se resignam a uma ideia de "era assim que tinha de ser", como se dissessem "assim foi predestinado", se acomodando a um "Et Verbum caro factum est". Não foi. São as condições materiais presentes (definidas pelas condições materiais do passado) que definem os rumos futuros. Trata-se de uma equação complexa de ato e efeito, cujos atos perdemos de vista. 

No entanto, ainda sim me parece que há uma ideia de “destino” a sussurrar caminhos e projetos. Trata-se da voz da consciência, que é muitas vezes autônoma, como afirmava Nietzsche, em forma de um autodiagnóstico de sintoma: es denkt in mir. E esse algo autônomo: o inconsciente, manifesta desejos que muitas vezes são deixados de lado. Nos Escritos, Lacan (1958/1998, p. 633) afirmou que o desejo é aquilo que se manifesta no intervalo cavado pela demanda aquém dela mesma. À vista disso, os sussurros do destino são nossos próprios sussurros, aquém de nós mesmos.

    Foram inúmeras as vezes que notei uma série de coincidências que me faziam sentir como se o universo estivesse ao meu favor, ou ainda, como se todo ele girasse à minha volta, ou como se eu fosse um personagem principal dele, como Truman, no Show de Truman. Mas não estava. Poderia citar uma série de exemplos para isso. Como quando estava lendo O Irmão alemão de Chico Buarque, com uma camiseta da CCCP e ler que um amigo dele tinha uma igual, ler sobre uma música enquanto a ouvia, e finalmente terminar o livro no mesmo dia em que Chico recebeu o prêmio Camões, coincidentemente atrasada pelo confinamento imposto pela pandemia de covid-19. Ou depois, ver meu sobrenome em outras duas obras como Fazenda Modelo e Leite Derramado. Coincidências bobas, mas que me fizeram ter a sensação de que “algo” queria dizer “algo” para além daquilo. 

    Recentemente, a morte de Enrique Dussel coincidiu com a abertura das vagas para mestrado em filosofia de Buenos Aires, e me soou quase como um convite. Essas situações acontecem o tempo todo, das mais complexas as mais bobas e ridículas, e parecem nos colocar em um papel de protagonista da vida, não de nossa própria vida, mas da vida em si.

    No entanto, essas coincidências cósmicas acontecem o tempo todo, e mais que isso, a vida em si é uma grande coincidência. Uma sobrevivência do acaso, melhor dito. Quem percebe demais a vida, nota as coincidências que a cercam, e quem as percebe demais poderá ser atormentado por elas. De modo semelhante ao que disse Wittgenstein, o tamanho do mundo tem a ver com o tamanho do nosso vocabulário, eis o fator que faz progredir, aritmeticamente, todos os sussurros possíveis. Nesse sentido, o tamanho do nosso vocabulário influencia, não apenas no tamanho de nosso “mundo”, mas também do “submundo”, ou seja, do inconsciente. Talvez a questão não seja vencer o céu ou mover o acheronta, como sugeriu Virgílio, mas saber rir de ambos. 

    "Há muito mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia", disse Shakespeare através de Hamlet. No entanto, é o "ser ou não ser" que permanece diante de nós como uma questão imperativa. Isso, pois, o único sussuro real em resposta a voz daquele que clama no deserto é o da propria morte, que nos induz, consequentemetne, a angústia do que faremos da vida. 


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