Desde que o ser era, e foi
E desde que sonho, sonhou
Pelo sonho o ser se interessa
Em favor de seu torpor
Os sonhos, sonhos são
A vida, vida é
E o sonho, feito mulher
É mistério em vastidão
O intento de compreender
É gozo, de gozar
Mais-valia, de valer
Também é sonho, de sonhar
E a vida de vigília
Na busca de si e do ser
Daquilo que possa viver
Vai dormir, e vai morrer
Em bem-me-quer
Ou mal-me-quer
Sonhar é feito mulher
No desejo do querer
O muro: a memória
E a faceta de vencer
Rememorar, compreender
É dançar e se perder
O sintoma é o próprio norte
Bússola desse naufrágio
E o salário do pecado: a morte
Que nos carrega de forma inevitável
A gênese do mundo onírico
Tem ordem genealógica
Criatividade e valor psíquico
Cravados no íntimo da memória
Os sonhos, sonhos são
A vida, vida é
E o sonho, feito mulher
É mistério em vastidão
É parte para beber
Fonte de mergulhar
O sensível para sentir
Filosofia de namorar
E o íntimo e seu segredo
Guardam o melhor para enxergar
Que é ver a mulher gozar
Tem a ver com o desejo de sonhar
São descobertas para o despertar
É segredo, para calar
É o diabo a questionar:
Che vuoi?
Por que nem sempre sonhamos com impressões mnêmicas dos dias mais recentes, mas muitas vezes mergulhamos, sem nenhum motivo reconhecível, num passado distante e quase apagado? Por que a consciência, no sonho, recebe tantas vezes a impressão de imagens mnêmicas indiferentes, enquanto as células do cérebro, justamente as que guardam os registros mais excitáveis do vivenciado, permanecem mudas e inativas, a não ser que um refrescamento agudo durante a vigília as tenha excitado pouco antes? (FREUD, 2019, p.42 - 43) / FREUD, Sigmund. Interpretação dos sonhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
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