terça-feira, 15 de agosto de 2023

Os sonhos

Desde que o ser era, e foi

E desde que sonho, sonhou

Pelo sonho o ser se interessa

Em favor de seu torpor


Os sonhos, sonhos são

A vida, vida é

E o sonho, feito mulher

É mistério em vastidão


O intento de compreender

É gozo, de gozar

Mais-valia, de valer

Também é sonho, de sonhar


E a vida de vigília

Na busca de si e do ser

Daquilo que possa viver

Vai dormir, e vai morrer


Em bem-me-quer

Ou mal-me-quer

Sonhar é feito mulher

No desejo do querer


O muro: a memória

E a faceta de vencer

Rememorar, compreender

É dançar e se perder


O sintoma é o próprio norte

Bússola desse naufrágio

E o salário do pecado: a morte 

Que nos carrega de forma inevitável 


A gênese do mundo onírico

Tem ordem genealógica

Criatividade e valor psíquico

Cravados no íntimo da memória


Os sonhos, sonhos são

A vida, vida é

E o sonho, feito mulher

É mistério em vastidão


É parte para beber

Fonte de mergulhar

O sensível para sentir

Filosofia de namorar


E o íntimo e seu segredo

Guardam o melhor para enxergar

Que é ver a mulher gozar

Tem a ver com o desejo de sonhar


São descobertas para o despertar

É segredo, para calar

É o diabo a questionar:

Che vuoi?


Por que nem sempre sonhamos com impressões mnêmicas dos dias mais recentes, mas muitas vezes mergulhamos, sem nenhum motivo reconhecível, num passado distante e quase apagado? Por que a consciência, no sonho, recebe tantas vezes a impressão de imagens mnêmicas indiferentes, enquanto as células do cérebro, justamente as que guardam os registros mais excitáveis do vivenciado, permanecem mudas e inativas, a não ser que um refrescamento agudo durante a vigília as tenha excitado pouco antes? (FREUD, 2019,  p.42 - 43) / FREUD, Sigmund. Interpretação dos sonhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.



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